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Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 9 de julho de 2021, onde abordo a dependência das economias de acordo com as suas matérias-primas.

«A Covid-19 colocou e continua a colocar em xeque várias economias mundiais, um “terramoto” que não deixou nenhum continente indiferente, inclusive África.

No entanto, e segundo o “Relatório sobre o Investimento Mundial 2021”, recentemente divulgado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, o vírus que assola o mundo causou maiores danos nas economias dependentes de matérias-primas, que foram mais afectadas do que as economias não baseadas nos recursos naturais. É o caso de Angola, mas também de vários países do continente africano.

«…os desafios económicos e sanitários em cascata devido à pandemia, juntamente com os baixos preços das matérias-primas ligadas à energia, influenciaram significativamente os investimentos no continente», podemos ler no “Relatório sobre o Investimento Mundial 2021”.

Como consequência, isto fez com que, por exemplo, os investimentos oriundos do estrangeiro no continente sofressem uma redução de 16% em 2020 (de 47 mil milhões de dólares em 2019 para 40 mil milhões). Verificou-se ainda uma queda nos investimentos de empresas pela primeira vez num país, que sofreram uma queda de incríveis 62% (77 mil milhões de dólares em 2019 contra 29 mil milhões de dólares em 2020).

Estes números demonstram mais uma vez a necessidade dos países dependentes de matérias-primas diversificarem ao máximo o seu sector produtivo, já que uma crise mundial como uma pandemia pode colocar em causa todos os seus pilares económicos, como aliás presenciamos em Angola ao longo destes últimos 18 meses. 

Evidentemente que ainda é cedo para retirarmos conclusões das consequências causadas pela Covid-19 em termos globais. Mas também é verdade que há, aqui e ali, sinais que devem ser interpretados e ponderados de imediato, como os que podemos retirar deste “Relatório sobre o Investimento Mundial 2021”.

Ao analisarmos os dados, ressalta-se que a recuperação dos países dependentes em demasia das matérias-primas está directamente relacionada com a recuperação da económica mundial, que se prevê bastante lenta devido à vacinação.

Esta “letargia” mundial faz com que a escala da recuperação dos investimentos em África (e não só) seja muito mais lento do que o previsto, como aliás ressalta o relatório, que prevê que o investimento estrangeiro no continente africano ronde um crescimento de apenas 5%, muito abaixo da taxa de crescimento projectada para o mundo, mas também para os países em desenvolvimento.

Em relação ao futuro, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento ressalta boas perspectivas para 2022, principalmente devido ao previsível aumento da procura por matérias-primas, mas também outros factores, como a reconfiguração das cadeias globais de valor ou a conclusão do acordo de comércio livre em África, por exemplo.

No entanto, esta não é a questão fundamental. O que teve (e tem) de positivo a Covid-19 foi obrigar muitos países a reflectir sobre a sua performance económica. O número de países que dependem da exportação de matérias-primas (quando estas representam mais de 60% de suas exportações totais de mercadorias em termos de valor) atingiu em 2019 o nível mais alto em 20 anos, algo comprovado ainda mais agora com a pandemia.

A dependência extrema de “commodities” afecta negativamente o desenvolvimento económico de um país e assim é fulcral a necessidade de a reduzir, pois só assim será possível progredir a nível económico (e social). Com 89% dos países dependentes de “commodities”, a África Subsaariana é a região mais afectada a nível mundial, seguida pelo Oriente Médio e Norte de África, onde 65% dos países dependem de matérias-primas. 

Esses países são vulneráveis ​​a choques negativos e a volatilidade de preços das matérias-primas, ainda mais em tempos de pandemia na qual vivemos. Com a extrema dependência das “commodities”, há um sério risco de uma eventual recessão por este ou aquele factor, o que resulta, muitas vezes, na acumulação de dívida pública, muitas vezes com um aumento da dívida externa.

Ou seja, é essencial diversificar a produção e as exportações, como fizeram recentemente, por exemplo, Ruanda e Camarões, países dependentes de exportações minerais que conseguiram expandir as suas exportações agrícolas. Apenas dois exemplos que Angola pode seguir…»

Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 25 de junho de 2021, onde abordo o bom exemplo de Angola na estratégia da vacinação da Covid-19.

«Recentemente, o director do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana, John Nkengasong, revelou que uma terceira vaga avançava «agressivamente» em África, principalmente devido à proliferação da variante indiana, que ganha cada vez mais terreno no continente africano (e não só…). 

Com cerca de 1.300 milhões de habitantes, África recebeu até ao momento 54,9 milhões de doses, das quais 35,9 milhões já foram administradas, revelou a entidade, que adiantou que apenas 0,6% da população africana tinha a vacinação completa. Em termos globais, África apresenta cerca de 4,9 milhões de casos (2,9% do total mundial) e mais de 133 mil mortes (3,7% do total mundial).

Entretanto, o G7 revelou posteriormente um plano cuja meta é dar aos países mais carenciados mais de mil milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 até o final de 2022 (das quais 500 milhões por parte dos Estados Unidos e 100 milhões do Reino Unido), um número que o secretário-geral da ONU, António Guterres, considerou de insuficiente, já que a humanidade, segundo o ex-primeiro ministro de Portugal, precisa de reconhecer que está em guerra com «um vírus» e, como tal, é necessária a implementação de uma verdadeira «economia de guerra». 

Também Durão Barroso, presidente da Aliança Global para as Vacinas (GAVI), uma iniciativa da Fundação Bill e Melinda Gates, admitiu a complexidade da distribuição de vacinas em África e nos países mais pobres, mas também a escassez de doses no mercado devido ao acúmulo excessivo de vacinas por parte dos países mais ricos, algo que, felizmente, parece estar a mudar. Deste modo, e ao contrário do que se pretendia, o objectivo inicial de assegurar 2 mil milhões de doses aos países em desenvolvimento até ao fim de 2021 foi adiado, em teoria para o primeiro trimestre de 2022, o que coloca em causa a imunidade mundial.

A verdade é que estas declarações e números demonstram que dificilmente África conseguirá alcançar a meta de vacinar 10% da sua população até Setembro, algo que só seria possível, e segundo cálculos da Organização Mundial da Saúde, se o continente recebesse 225 milhões de doses de uma assentada.

Para termos uma ideia da desigualdade que há neste momento, o epidemiólogo Salim Abdool Karim fez uma simples conta: «Somos 7.500 milhões de pessoas no mundo e há 1.800 milhões de vacinas. Isto significa que uma a cada cinco pessoas tem acesso à vacina. Em África, temos uma para cada 50 pessoas. É uma tremenda desigualdade tremenda e injustiça.»

Mas felizmente há casos de sucesso no continente. Há poucas semanas, as empresas exploradoras de petróleo em Angola assinaram um acordo com o Governo no qual se comprometeram a oferecer ao país um milhão de vacinas contra a Covid-19. Isso permitirá, segundo as entidades governamentais, a vacinação de mais 500 mil pessoas, aumentando deste modo a imunidade da população.

Estas vacinas somar-se-ão as 2.172.000 doses da vacina da Covid-19 alocadas ao país até Junho como parte das doses doadas a mais de 92 países de baixa renda pelos parceiros da iniciativa COVAX, o que aumenta a possibilidade de Angola alcançar a meta de pelo menos 20% da sua população vacinada até ao final do ano. Portanto, estamos perante um verdadeiro oásis em África, um exemplo que deve ser olhado com orgulho por parte dos angolanos.

Não podemos ignorar que este é um problema da humanidade e não deste ou daquele país e continente, já que, enquanto o vírus circular livremente a nível mundial, a probabilidade de infecção ou reinfecção é maior, assim como a probabilidade de surgirem novas variantes que poderão ser mais transmissíveis e perigosas, como é o caso neste momento da variante B.1.617, que surgiu na Índia, por exemplo.

Felizmente, Angola está a fazer o seu papel, principalmente ao não desperdiçar vacinas que chegam ao nosso país, algo que acontece em outras nações africanas por esta ou aquela razão, como a debilidade dos sistemas de saúde, problemas logísticos, a falta de frigoríficos para armazenar as doses, energia eléctrica, formação, insegurança em muitos países, etc. 

«Felicitamos Angola pelo forte engajamento e determinação demonstrados desde o processo de elaboração atempada do plano de vacinação, a regulamentação, entre outros, o que resultou na resposta positiva da Covax e a aquisição atempada de vacinas para a protecção da sua população”, afirmou a representante da Organização Mundial de Saúde em Angola, Djamila Cabral. «A OMS regozija-se de poder estar ao lado do Governo de Angola e das populações nesta empreitada para proteger a saúde de todos e salvar vidas.»

O caminho a seguir por Angola é este, com responsabilidade e compromisso. Evidentemente que não é o mundo ideal, mas também não deixa de ser um oásis em África, o que deve ser destacado por todos.»

Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 11 de junho de 2021, onde abordo o aumento da procura dos minerais.

«A Agência Internacional de Energia (AIE) revelou recentemente um relatório no qual salienta que a procura por minerais dedicados à construção de tecnologias de energia limpa será multiplicada por quatro até 2040 se a humanidade alcançar as metas do Acordo de Paris.

A transição energética tem um preço e a neutralidade de carbono ambicionada pelo Acordo de Paris apresenta uma factura significativa  para os moldes actuais e que portanto não podem ser menosprezadas nas mesas das decisões (recorde-se que as metas assinadas na capital francesa visam alcançar a descarbonização das economias mundiais e estabelece, como um dos seus objectivos de longo prazo, o limite do aumento da temperatura média global a níveis abaixo dos 2 graus centígrados acima dos níveis pré-industriais. Este acordo determina ainda que se prossigam esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus centígrados).

A AIE salientou no seu relatório que um carro eléctrico precisa de seis vezes mais minerais que um automóvel convencional e uma instalação de turbinas eólicas necessita nove vezes mais do que uma central a gás com a mesma capacidade de geração de energia.

Segundo as estimativas da entidade, e caso as metas do Acordo de Paris sejam alcançadas, o desenvolvimento de carros eléctricos e baterias significaria uma multiplicação por 30 no consumo de minerais entre 2020 e 2040, por exemplo, um número que não pode ser ignorado pelos políticos mundiais.

Já o fortalecimento e extensão das redes elétricas para cobrir as energias renováveis ​​significariam a duplicação do consumo de cobre. A procura do lítio (essencial para as baterias), por exemplo, seria multiplicada por 32. 

Estas são outras estimativas salientadas no relatório da AIE:

  1. Grafite, procura multiplicada por 25
  2. Cobalto, procura multiplicada por 21
  3. Níquel, procura multiplicada por 19
  4. Terras raras, procura multiplicada por 7

Evidentemente que este alerta da Agência Internacional de Energia não tem como objectivo ignorarmos as metas do Acordo de Paris, mas é uma forte chamada de atenção de que há outros custos a ter em conta nesta transição energética por parte dos governos, que devem dar sinais claros sobre como planeiam transformar os seus compromissos climáticos em acção. 

O director executivo da AIE, Fatih Birol, defendeu a necessidade de todos trabalharem em conjunto para deste modo reduzir significativamente os riscos de volatilidade dos preços e interrupções no fornecimento.

Se não forem realizadas estratégias económicas reais e concertadas entre todos nos próximos tempos, há uma grande possibilidade de existir no futuro problemas na oferta a nível mundial, o que significará uma incerteza de preços que poderá colocar em causa toda a transição energética ocorrida até então.

Para atenuar este problema, é necessário o investimento urgente em soluções tecnológicas que permitam a redução da quantidade de material utilizado, assim como a reciclagem. Por exemplo, e segundo várias pesquisas, a reciclagem do cobre, lítio, níquel e cobalto das baterias até 2040 poderá compensar cerca de 10% das necessidades desses minerais. Mas é necessário mais, muito mais para cobrir as necessidades do mercado.

Nos bastidores, já se começa a falar com preocupação sobre este tema, principalmente em relação às cadeias de suprimento dos minerais, hoje em poder da China. Os especialistas recordam que as exigências ambientais das últimas décadas acabaram por provocar o fecho de muitas minas, ao mesmo tempo que abriram as portas aos chineses, que conseguiram ver a importância do controlo sobre as cadeias de suprimentos de matérias-primas. 

A China possui hoje recursos maciços de alguns dos principais minerais, além de dominar o seu processamento. Em 2019, e a nível mundial, o país foi responsável pelo processo de 65% do níquel a nível mundial, mas também 82% do cobalto, 93% do manganês, 59% do lítio, 83% de tungsténio e 100% do suprimento global de grafite, por exemplo. 

Esse domínio dos minérios por parte de Pequim preocupa grande parte do mundo, principalmente os Estados Unidos, que olha como está vulnerável em termos comerciais, dependendo dos humores do Governo chinês, que tem todas as peças para controlar ou influenciar significativamente os mercados mundiais (e as suas políticas).

Por isso, é com naturalidade que alguns países já começam a fazer stock de minerais, temendo uma eventual falha nas cadeias de abastecimento. Ou então a fortalecer alianças diplomáticas e comerciais tendo em vista a manutenção dessas cadeias de suprimentos. O que ninguém nega é que as peças do tabuleiro de xadrez estão a mudar e o minério poderá ser o novo petróleo do passado. »

Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 28 de maio de 2021, onde abordo um relatório da Agência Internacional de Energia, que demonstra claramente que o fim dos combustíveis fósseis está próximo.

«Como todos sabem, a economia angolana é sustentada em grande parte pelos combustíveis fósseis. No entanto, nos últimos anos, o mundo virou-se definitivamente para as energias renováveis, não existindo nos nossos dias espaço para outro caminho, fruto dos problemas ambientais que a humanidade vive.

Na semana passada, a Agência Internacional de Energia (AIE), organização internacional cujo objectivo é coordenar as políticas energéticas dos seus estados-membros e conhecida mundialmente no sector pela sua posição conservadora, apresentou um relatório que deve ser olhado com bastante cuidado pelos nossos políticos, já que a AIE demonstra claramente que o fim dos combustíveis fósseis está próximo, mais próximo do que muitos possam acreditar ou desejar.

A principal conclusão que podemos retirar do relatório “Net Zero by 2050 – A Roadmap for the Global Energy Sector” (“Net Zero até 2050: um roteiro para o sector energético global”) é claro: para evitar a catástrofe climática que vivemos, mais nenhum investimento deve ser feito no petróleo, gás e carvão.

Fundada como resposta à crise internacional do petróleo em 1974 e integrada na estrutura da Organização pela Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), o relatório da AIE procura ir de encontro aos objectivos do Acordo de Paris, que visa alcançar a descarbonização das economias mundiais e estabelece, como um dos seus objectivos de longo prazo, o limite do aumento da temperatura média global a níveis abaixo dos 2 graus centígrados acima dos níveis pré-industriais. O acordo determina ainda que se prossigam esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus centígrados.

O que é de significativo no estudo da AIE é a sua abertura para a aposta nas energias verdes, quando, nas últimas décadas, sempre pareceu colocar um certo travão na evolução das energias renováveis. Não podemos ignorar que os estudos da Agência Internacional de Energia moldam, muitas vezes, decisões políticas de diversos governos, além de ditar o rumo do sector. Por isso a necessidade do Governo de Angola (e de outros países que dependem e muito dos combustíveis fósseis) olhar com atenção para o relatório “Net Zero by 2050 – A Roadmap for the Global Energy Sector”, que apresenta 400 medidas e desafios para alcançar o denominado “Net Zero” (emissões líquidas zero) até 2050, sendo três os “pilares desta enorme casa”:

  1. Fim imediato do investimento em petróleo, gás ou carvão
  2. Energia solar e eólica deve fornecer 68% de toda a procura global de electricidade
  3. Emissões totais de CO₂ relacionadas à energia devem chegar a zero até 2050

O cronograma sugerido pela Agência Internacional de Energia é o seguinte:

2021 – Fim dos investimentos em projectos de combustíveis fósseis

2035 – Proibir as vendas de carros novos com motores de combustão 

2040 – Sector de energia eléctrica alcança emissões líquidas zero 

2050 – Sector global de energia alcança emissões líquidas zero 

Ou seja, o que a AIE demonstra é que o mundo já não pode esperar e precisa agir agora e não amanhã, o que significa, defende a instituição, o fim imediato do financiamento de novos projectos de exploração de campos de petróleo e gás, mas também de novas minas de carvão. Apesar de reconhecer o problema dos combustíveis fósseis e da necessidade das energias renováveis como saída para os nossos problemas ambientais, a AIE reconhece no entanto que há um grande caminho por percorrer, já que as soluções propostas ainda são insuficientes. No entanto, e este é o alerta deixado, a verdade é que as empresas de petróleo, gás e carvão estão agora ainda mais isoladas. 

O relatório da AIE admite que será necessário nos próximos anos uma transformação sem precedentes na forma como se produz, transporta e utiliza a energia a nível mundial, uma energia que deverá ser dominada pelas tecnologias solar e eólica, que substituirão os combustíveis fósseis. 

Se hoje esses mesmos combustíveis fósseis representam ⅘ da energia mundial, até 2050 deverá representar ⅕, sendo que essa porção existirá devido às técnicas de captura e armazenamento de dióxido de carbono que serão criadas nos próximos anos.

Ao defender o caminho da descarbonização, a conservadora Agência Internacional de Energia revela que a Era dos Combustíveis Fósseis chega em breve definitivamente ao seu fim e portanto os países que dependem do sector serão obrigados a encontrar soluções tendo em vista a sustentação das suas economias. Não há tempo para ganhar mais… tempo.» 

Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 14 de maio de 2021, onde abordo a distribuição das vacinas no mundo.

«Foi preciso o Governo do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, apoiar os esforços para renunciar às protecções de propriedade intelectual das vacinas contra a Covid-19 para que o Mundo finalmente debatesse o elefante que há muito estava confortavelmente instalado no meio da sala. Nos últimos meses, várias entidades ressaltaram a necessidade da existência de um melhor equilíbrio na vacinação mundial, já que não era admissível assistir ao que acontecia em termos éticos. 

Por exemplo, era impossível ficarmos indiferentes a posição de alguns Governos, como o do Canadá, que assegurou a compra de 400 milhões de unidades para uma população que ronda os 40 milhões, ou de Israel, que pagou o dobro do preço por vacina à Pfizer para ser o primeiro país a poder vacinar-se, dois exemplos entre muitos que poderíamos aqui citar. 

Mas também não podíamos ignorar os astronómicos lucros das farmacêuticas, como a Astra-Zeneca, que teve um aumento nos lucros de 159% em 2020 face ao ano anterior, ou os jogos de bastidores que ainda existem para descredibilizar esta ou aquela vacina segundo diversos interesses económicos e geopolíticos. 

Ou seja, o elefante estava há muito tempo no meio da sala, embora o mundo fingisse que a vacinação mundial decorria a um ritmo satisfatório, equilibrado e eticamente aceitável, apesar dos alertas da UNESCO ou da própria Organização Mundial da Saúde (OMS), que chegou a tomar uma posição pragmática a determinado momento: para que os países tomassem a vacina disponível, independentemente da sua origem, da Rússia, China, etc. A entidade defendia que o importante era, acima de tudo, vacinar rapidamente a maior parte da população mundial.

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No entanto, foram precisas milhares de mortes diárias na Índia e no Brasil para que o mundo finalmente começasse a procurar soluções para o problema que assola não este ou aquele país, mas a humanidade em geral. Não adianta nada os países mais poderosos estarem vacinados se novas variantes genéticas surgirem em outros locais, o que poderá neutralizar as vacinas existentes no mercado.

Obviamente que o levantamento das patentes de vacinas levanta várias questões. Por exemplo, numa próxima pandemia, as farmacêuticas poderão mostrar uma menor predisposição para o desenvolvimento de novas vacinas, além de cobrarem preços mais altos. Ou seja, esta solução poderá ser contraproducente. 

Mas o que salientamos, acima de tudo, é finalmente o mundo começar a discutir e a falar sobre a distribuição das vacinas, que não pode estar centralizada em apenas alguns países. É necessário parar de olhar para o umbigo e ver o todo. Por exemplo: a escassez de matérias-primas e a capacidade de fabricação de vacinas são dois dos grandes problemas que as farmacêuticas vivem. Como nós, humanidade, podemos encontrar soluções para estes obstáculos? 

Joe Biden teve o dom de “mexer” com as conversações nos mais variantes quadrantes. Por exemplo, a Organização Mundial do Comércio defendeu o levantamento das patentes de vacinas, enquanto António Costa, primeiro-ministro de Portugal, país que preside ao Conselho da União Europeia até final de Junho, salientou que o problema crucial da pandemia não é o levantamento, mas a capacidade de produção e regulação do mercado do medicamento e de os Estados terem de se organizar a nível global para encontrarem outras formas com a indústria farmacêutica de financiar a investigação. Já a UNESCO apoiou o movimento para o levantamento de patentes das vacinas contra o coronavírus, já que, destacou, «pode salvar milhões de vidas e servir de modelo para o futuro da cooperação científica».

Portanto, o “terramoto” de declarações sobre o assunto foi avassalador e isso demonstra que há um debate a fazer, já que o mundo precisa de uma solução urgente. 

No momento em que atravessamos um dos piores períodos de sempre, é necessário sermos altruístas, pensarmos na comunidade em detrimento do individual, acreditarmos que juntos vamos encontrar a saída para a Covid-19.»

Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 30 de Abril de 2021, onde abordo os 100 dias de Governação do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

“Evidentemente que 100 dias não ditam um Governo, mas 100 dias ditam um rumo de uma governação. Pelo menos deveriam ditar um rumo… E Joe Biden fez questão de mostrar o que pretende para o Estados Unidos nos seus primeiros três meses e meio: um corte total com o legado do seu antecessor, Donald Trump.

Em apenas 100 dias, Joe Biden e os seus comandados revolucionaram a administração norte-americana, com parte da imprensa do país a considerar inclusive que este início foi dos mais impressionantes de uma presidência americana.

Não é para menos! Ao analisarmos estes 100 dias, não há como ficar indiferente ao que Joe Biden e a sua equipa realizaram. Vejamos por exemplo algumas das mais significativas:

  • pacote de estímulos à economia de 1,9 biliões de dólares
  • regresso oficial ao Acordo de Paris
  •  cimeira virtual sobre o clima
  • pacote legislativo tendo em vista o controlo de armas
  • provável acordo com o Irão na questão nuclear
  • início de um novo sistema tributário

Se há políticos que preferem não apostar todas as suas fichas nos primeiros 100 dias mas diluir o que pretendem ao longo dos anos, Joe Biden fez precisamente o contrário. Acreditamos que a opção foi mais que válida, principalmente devido a dois factores:

  • apagar de imediato com os anos de Donald Trump na Casa Branca, demonstrando ao mundo que a sua administração era completamente distinta do seu antecessor
  • a pandemia mundial

Joe Biden compreendeu na perfeição que não tinha tempo, tinha de agir de imediato, fruto do triste legado de Trump e do triste presente da pandemia e as suas consequências. O Estados Unidos necessitava de uma resposta e o novo presidente do país soube ouvir esse “grito mudo” que poderia se transformar num enorme problema para si e o seu Governo caso o “silêncio” fosse ignorado.

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No Estados Unidos, Biden já é comparado a Angela Merkel, Emmanuel Macron e Mario Draghi, líderes que, cada um à sua maneira, marcaram os seus governos, líderes transformacionais que o mundo actual de hoje procura quase como uma lupa, numa luta constante contra o populismo e a insatisfação geral.

Apesar de muitos duvidarem da sua qualidade para governar o principal país do Mundo a par da China, mais pela sua idade do que por outra razão racional qualquer (78 anos), Joe Biden surpreendeu não só os norte-americanos e o mundo em geral, mas também o seu próprio partido e os rivais republicanos, com vários conservadores a elogiarem Biden em várias intervenções públicas.

Esta suposta unanimidade de Biden deve-se em muito a posição do presidente dos Estados Unidos não ter pregado o nós contra eles, algo que foi apanágio de Trump e os seus correligionários. Logo no discurso de posse, Biden fez questão de salientar que era hora da América ser uma.

«Meus compatriotas, no trabalho que temos pela frente, vamos precisar uns dos outros. (…) A América depende de todos, é uma grande nação, somos boas pessoas. Temos muito que fazer, há muito a sarar, muito a construir (…) É preciso mais que palavras, é preciso a coisa mais lúcida da democracia: unidade… unidade (…) O mundo está a ver-nos e esta é a minha mensagem: a América foi testada e surgiremos mais fortes não para responder aos desafios de ontem, mas aos de hoje e aos de amanhã. Iremos liderar pela força do nosso exemplo. Seremos um parceiro confiável para a paz e a segurança.»

Mais do que meras palavras, Biden fez questão de demonstrar nesses 100 dias actos e factos para justificar o seu discurso, recolocando deste modo o Estados Unidos num papel que ocupou sempre no seu historial. Num mundo cada vez mais dividido e divergente, Joe Biden parece ter encontrado três temas centrais para a sua governação: Igualdade, Clima e Inclusão.

Como escrevemos no início, 100 dias não ditam um Governo. Joe Biden terá agora de centrar a sua atenção nas reformas da saúde, habitação e fiscalidade, por exemplo. No entanto, a estratégia utilizada neste cartão de visita foi meritório, com o New Joe a utilizar uma retórica modesta e cuidadosa e uma meia dúzia de objectivos políticos importantes, colocando ao mesmo tempo metas curtas para a sua conclusão. Com isso, ganhou a confiança do seu país e do mundo, além de demonstrar que, em apenas 100 dias, é possível fazer muito na política.”

Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 26 de fevereiro de 2021, onde abordo a eleição da nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala para a Organização Mundial de Comércio.

«A eleição Ngozi Okonjo-Iweala à frente da Organização Mundial de Comércio (OMC) deve ser um orgulho para o continente africano, mas também para a representação feminina nas mais altas rodas dos organismos multilaterais com ampla repercussão mundial. No entanto, o trabalho da nigeriana não será fácil…

O comércio mundial está em polvorosa. Se antes os Estados Unidos eram o grande dominador a escala global e ditava as leis das negociações nos bastidores, desde o surgimento da China capitalista nas últimas décadas que temos uma nova luta comercial a nível mundial, um confronto que ganha cada vez mais relevo um pouco por todo o mundo. É verdade que a Europa procura se instalar no tabuleiro do xadrez mundial, mas são estas as duas nações que comandam o panorama actual do comércio cada vez mais globalizado.

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Este será sem dúvida um dos principais temas (senão o principal) da agenda de Okonjo-Iweala nos próximos meses e anos. Primeira mulher a dirigir a OMC desde a sua criação, datada de 1995, a nigeriana terá no entanto outros arquivos no qual deverá centrar a sua atenção. Por exemplo, olhar para dentro do seu próprio organismo, que necessita urgentemente de se reinventar após a machadada final dada pela administração de Donald Trump no ano passado, quando boicotou a OMC (curiosamente, Trump que vetou o seu nome para ocupar o cargo de directora-geral da Organização Mundial de Comércio, uma decisão que foi depois revogada pelo actual presidente norte-americano, Joe Biden, o que permitiu a sua eleição).

Descredibilizada a nível internacional deste então, agora a ex-ministra das Finanças da Nigéria tem como compromisso restaurar a própria credibilidade do organismo, uma tarefa que muitos acreditam ser hercúleo. Para entendermos o tamanho do desafio da nigeriana, e segundo vários especialistas, muitos outros evitaram a todo o custo assumir o cargo agora ocupado por Okonjo-Iweala.

Todavia, e apesar dos desafios, ninguém coloca em xeque as potencialidades da nova líder da Organização Mundial de Comércio, que passou, por exemplo, cerca de 25 anos pelo Banco Mundial. O seu historial curricular é um exemplo para muitas pessoas e foram raras as vozes contrárias a sua eleição. 

Mas, mais do que olharmos para a capacidade de Okonjo-Iweala, uma capacidade inegável e que todos esperam que seja reflectida na OMC, também temos de olhar obrigatoriamente para o exemplo que a sua nomeação representa, para África, mas também para as mulheres. A realidade é que raramente temos representantes africanos nos organismos de expressão mundial, muito menos dirigentes femininas. Portanto, esta nomeação deve ser aplaudida por fugir ao padrão do que acontece há muitos e muitos anos.

É chegada a hora de todos fazermos uma reflexão e questionarmos este comportamento seguido há muitas décadas, de finalmente lutarmos por um equilíbrio representativo a nível geopolítico mas também de género. Neste mundo cada vez mais global, é necessário defendermos o pluralismo nos mais variados órgãos mundiais, não centrarmos as nossas escolhas sempre nas velhas peças do xadrez mundial, ou seja, um xadrez desde sempre inclinado para a Europa/Estados Unidos e para o género masculino.

Curiosamente, também temos hoje uma mulher na presidência da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que classificou a nomeação da nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala na Organização Mundial de Comércio como um «momento histórico para o mundo inteiro».

A líder do executivo comunitário não deixou de enfatizar a sua felicidade «por ver uma mulher africana à frente da Organização Mundial de Comércio». Esta simples frase de Ursula von der Leyen, «uma mulher africana», demonstra o longo caminho que ainda temos de percorrer hoje e no amanhã. 

Ngozi Okonjo-Iweala tem portanto uma enorme carga de trabalho sobre as suas costas. Não só pela guerra que hoje travam Estados Unidos e a China, não só por ter de reestruturar e reconstruir a credibilidade da Organização Mundial de Comércio, mas também por ser uma mulher e ainda por cima oriunda de África. Destes três enormes desafios, o último nem deveria ser considerado. Todavia, tal não é possível, o que aumenta a pressão sobre si. O que esperamos é que a nigeriana cumpra com as expectativas e prove ser possível ter africanos nas grandes instituições mundiais. Mesmo que sejam mulheres africanas.

Num momento decisivo para a história da OMC, uma entidade que precisa de ser reformulada com regras actualizadas e adequadas ao mundo de hoje, centrando-se muito provavelmente nas transformações sustentáveis e digitais da economia global, será precisamente uma mulher africana a ser o rosto da entidade. 

Por último, refira-se que Ngozi Okonjo-Iweala vai assumir funções a 01 de Março e o seu mandato, que pode ser renovado, expira a 31 de Agosto de 2025.»

Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, de 12 de fevereiro de 2021 onde abordo a educação em tempos de crise.

«Se há um sector que a pandemia abalou por completo os pilares da sua sustentabilidade foi a Educação. A Covid-19 mais não fez do que apresentar as fragilidades que o sistema educacional apresenta, não só em Angola, mas no mundo. Há duas em particular que merecem uma análise de todos: a falta de autonomia das crianças e dos jovens e a dificuldade de muitos professores em trabalharem com as ferramentas tecnológicas disponíveis nos dias de hoje, com as salas de aula transferidas para o computador.

Como referido, estes dois temas mereciam por si só uma reflexão, mas hoje prefiro abordar um mal ainda maior provocado pela pandemia no sistema educacional: a ausência de aulas e as suas consequências nos alunos. 

De acordo com um recente relatório divulgado pela Unesco, as crianças e jovens do mundo perderam em média 2/3 do ano lectivo por causa da pandemia. E, nos nossos dias, mais de 800 milhões de alunos (ou seja, mais da metade da população estudantil mundial) continuam sem aulas, entre eles os estudantes angolanos do ensino primário  (1.ª, 2.ª, 3.ª, 4.ª e 5.ª classes), que regressaram às aulas no passado dia 10 de Fevereiro, aulas que estavam suspensas desde Março de 2020 em resultado da Covid-19. 

Segundo o relatório da Unesco, Angola é precisamente um dos países onde as escolas estiveram mais tempo encerradas, concretamente mais de 40 semanas. A média global foi de 22 semanas (5,5 meses).

A directora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, foi clara na sua declaração ao afirmar que «o fechamento prolongado de instituições de ensino causa impactos psicossociais crescente nos alunos, aumentando as perdas de aprendizagem e o risco de abandono escolar, afectando desproporcionalmente deste modo os mais vulneráveis»

Para Audrey Azoulay, o encerramento total das escolas deve ser o último recurso a ser escolhido, embora reconheça ao mesmo tempo que os estabelecimentos educacionais só podem abrir em total segurança sanitária. Uma segurança que recentemente foi colocada em causa pelo presidente do Sindicato Nacional dos Professores angolanos, Guilherme Silva, que assegurou à agência portuguesa de notícias, a Lusa, que as condições de biossegurança não estavam criadas a nível do país nas escolas do ensino primário.

A abertura ou não das escolas é um dos debates em voga um pouco por todo o mundo. Está provado que o ensino à distância (quando este existiu) não conseguiu alcançar os resultados da consolidação dos saberes. Há inclusive muitos pedagogos que defendem que não se pode falar em aprendizagem no ensino online, principalmente por este não conseguir reter a mesma atenção que em aulas presenciais (e mesmo nessas há uma dispersão crescente, fruto da influência digital nas nossas vidas). Para muitos, «o ensino online é uma completa falsificação da educação».

Mas… E se não houver alternativas? E se o ensino online for a solução do futuro imediato? Será que é realmente uma alternativa tão nefasta como muitos defendem? 

Estamos a viver realmente um momento singular e é necessário encontrar soluções sem tabus ou dogmas. Num momento crucial para milhões de alunos, é fundamental olhar com alguma reflexão sobre a ausência de aulas e as suas consequências. 

O ensino online acarreta um enorme repto para o sistema educacional e evidentemente apresenta inúmeros desafios. Mas colocá-lo de lado em vez de integrá-lo do melhor modo possível parece uma decisão errada. Estamos a viver um período ímpar da história e é necessária clareza nas nossas decisões, sem medos do “desconhecido”. 

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Entre uma escola fechada, uma escola aberta em risco sanitário e o desconhecimento geral do ensino online, temos de encontrar o melhor caminho entre estas três alternativas (ou outras…).

Acima de tudo, é fundamental encontrar a melhor pedagogia a utilizar. É verdade que o fecho das escolas coloca em causa o tradicional processo ensino-aprendizagem, mas, em pleno século XXI, também temos a obrigação de encontrar soluções que, mesmo que temporárias, resolvam os nossos problemas. O que não pode acontecer é este duelo de dogmas, já que o futuro de milhões de alunos está em xeque com a pandemia.

Artigo publicado na passada sexta-feira no Novo Jornal, em Angola, no qual escrevo sobre o que o Ambiente pode esperar com Joe Biden, novo presidente dos Estados Unidos.

«Joe Biden tomou posse no passado dia 20 de Janeiro, quarta-feira, como o novo presidente dos Estados Unidos. Na sua agenda política, que terá como principal foco a reunificação dos seus concidadãos, o clima terá um papel determinante, como já afirmou o democrata, que, nos primeiros 100 dias da sua governação, pretende organizar uma Cimeira do Clima no início de 2022, concretamente em Fevereiro.

Se Donald Trump ignorou por completo o clima no seu mandato, o mesmo não deverá acontecer com Joe Biden. Por exemplo, uma das mensagens deixadas claras pelo democrata mal soube que fora eleito foi confirmar o seu desejo de fazer com que os Estados Unidos fossem reintegrados ao Acordo de Paris. O novo presidente dos Estados Unidos tem plena consciência do papel que o seu país pode desempenhar no combate à crise climática, um papel que pretende assumir sem complexos.

Vou começar a trabalhar imediatamente com outros países para fazer tudo o que pudermos, incluindo a convocação dos líderes das principais economias para uma Cimeira do Clima nos meus primeiros 100 dias de mandato (…) Vamos elevar o incrível trabalho que cidades, estados e empresas têm feito para ajudar a reduzir as emissões e construir um futuro mais limpo. Vamos ouvir e envolver-nos com os activistas, incluindo jovens, que continuaram a soar o alarme e exigir mudanças daqueles que estão no poder», escreveu há dias Joe Biden.

Uma declaração que não deixou indiferente o secretário-geral da ONU, António Guterres, que enfatizou a importância dos Estados Unidos na luta contra o clima: 

«Esperamos uma liderança muito activa dos EUA nas acções climáticas de agora em diante, pois a sua liderança é absolutamente essencial. É o país com a maior economia do mundo, sendo que se torna absolutamente essencial para que os nossos objectivos sejam alcançados.»

A mensagem é portanto clara do que o presidente dos Estados Unidos pretende no seu mandato, uma excelente notícia para a comunidade mundial, ainda mais depois da China ter revelado que pretende atingir a neutralidade nas emissões de dióxido de carbono (CO2) até 2060, um desejo que deverá significar um investimento de mais de 4,25 biliões de euros segundo algumas estimativas. Não podemos ignorar que a China produz mais de dez mil toneladas de CO2 todos os anos, representa 28% do total das emissões globais e o seu fornecimento de energia assenta 90% em hidrocarbonetos…

O grande objectivo de Joe Biden nos próximos anos é encaminhar o processo para que os Estados Unidos atinjam a neutralidade nas emissões de dióxido de carbono até 2050, um desejo que tem por trás um cunho financeiro. A equipa do novo presidente dos Estados Unidos está ciente das possibilidades económicas que a energia limpa proporciona e é com ela que Joe Biden pretende fomentar a Economia do seu país nos próximos anos, concretamente com a criação de novos empregos.

Uma equipa que Joe Biden qualificou de «brilhante, qualificada, experiente e que quebra barreira». 

O principal nome da mesma é Michael Regan, director da Agência de Protecção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos, e que trabalhou na agência durante as administrações de Bill Clinton (1993-2001) e George W. Bush (2001-2009), o que o qualifica no lugar segundo vários especialistas. Primeiro afro-americano a liderar a EPA, Michael Regan revelou que não pretende criar uma “guerra” com a indústria dos combustíveis fósseis, pelo contrário, o seu objectivo é «trabalhar para um futuro melhor». Um discurso equilibrado e que demonstra a sua preocupação com o momento de transição que estamos a viver, onde será necessário encontrar bases de sustentação entre os defensores do mainstreaming e as novas respostas ambientais.

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Outro nome a reter na equipa de Joe Biden é a nomeação da ex-governadora do Michigan entre 2003 e 2011, Jennifer Granholm, que vai liderar a pasta da Energia. Profunda defensora dos veículos eléctricos e do desenvolvimento de tecnologias de energia alternativa, a nomeação de Jennifer Granholm é uma demonstração do que o presidente dos Estados Unidos pretende no seu mandato, concretamente uma aposta na energia limpa e na tecnologia. Temos aqui um claro sinal dos passos que o mercado da energia deve seguir, um sinal directo para o mercado da indústria fóssil.

Por último, nota ainda para Gina McCarthy. A administradora da EPA entre 2013 e 2017 sob a administração Barack Obama (2009-2017) vai ocupar o cargo de conselheira sénior para as Alterações Climáticas, um cargo criado por Joe Biden para o seu mandato, mais uma clara demonstração do caminho que o novo presidente dos Estados Unidos pretende para o seu mandato.

Pelo menos em termos teóricos, o clima pode respirar nos próximos anos. Agora é esperar pela realidade…»