Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 9 de julho de 2021, onde abordo a dependência das economias de acordo com as suas matérias-primas.

«A Covid-19 colocou e continua a colocar em xeque várias economias mundiais, um “terramoto” que não deixou nenhum continente indiferente, inclusive África.

No entanto, e segundo o “Relatório sobre o Investimento Mundial 2021”, recentemente divulgado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, o vírus que assola o mundo causou maiores danos nas economias dependentes de matérias-primas, que foram mais afectadas do que as economias não baseadas nos recursos naturais. É o caso de Angola, mas também de vários países do continente africano.

«…os desafios económicos e sanitários em cascata devido à pandemia, juntamente com os baixos preços das matérias-primas ligadas à energia, influenciaram significativamente os investimentos no continente», podemos ler no “Relatório sobre o Investimento Mundial 2021”.

Como consequência, isto fez com que, por exemplo, os investimentos oriundos do estrangeiro no continente sofressem uma redução de 16% em 2020 (de 47 mil milhões de dólares em 2019 para 40 mil milhões). Verificou-se ainda uma queda nos investimentos de empresas pela primeira vez num país, que sofreram uma queda de incríveis 62% (77 mil milhões de dólares em 2019 contra 29 mil milhões de dólares em 2020).

Estes números demonstram mais uma vez a necessidade dos países dependentes de matérias-primas diversificarem ao máximo o seu sector produtivo, já que uma crise mundial como uma pandemia pode colocar em causa todos os seus pilares económicos, como aliás presenciamos em Angola ao longo destes últimos 18 meses. 

Evidentemente que ainda é cedo para retirarmos conclusões das consequências causadas pela Covid-19 em termos globais. Mas também é verdade que há, aqui e ali, sinais que devem ser interpretados e ponderados de imediato, como os que podemos retirar deste “Relatório sobre o Investimento Mundial 2021”.

Ao analisarmos os dados, ressalta-se que a recuperação dos países dependentes em demasia das matérias-primas está directamente relacionada com a recuperação da económica mundial, que se prevê bastante lenta devido à vacinação.

Esta “letargia” mundial faz com que a escala da recuperação dos investimentos em África (e não só) seja muito mais lento do que o previsto, como aliás ressalta o relatório, que prevê que o investimento estrangeiro no continente africano ronde um crescimento de apenas 5%, muito abaixo da taxa de crescimento projectada para o mundo, mas também para os países em desenvolvimento.

Em relação ao futuro, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento ressalta boas perspectivas para 2022, principalmente devido ao previsível aumento da procura por matérias-primas, mas também outros factores, como a reconfiguração das cadeias globais de valor ou a conclusão do acordo de comércio livre em África, por exemplo.

No entanto, esta não é a questão fundamental. O que teve (e tem) de positivo a Covid-19 foi obrigar muitos países a reflectir sobre a sua performance económica. O número de países que dependem da exportação de matérias-primas (quando estas representam mais de 60% de suas exportações totais de mercadorias em termos de valor) atingiu em 2019 o nível mais alto em 20 anos, algo comprovado ainda mais agora com a pandemia.

A dependência extrema de “commodities” afecta negativamente o desenvolvimento económico de um país e assim é fulcral a necessidade de a reduzir, pois só assim será possível progredir a nível económico (e social). Com 89% dos países dependentes de “commodities”, a África Subsaariana é a região mais afectada a nível mundial, seguida pelo Oriente Médio e Norte de África, onde 65% dos países dependem de matérias-primas. 

Esses países são vulneráveis ​​a choques negativos e a volatilidade de preços das matérias-primas, ainda mais em tempos de pandemia na qual vivemos. Com a extrema dependência das “commodities”, há um sério risco de uma eventual recessão por este ou aquele factor, o que resulta, muitas vezes, na acumulação de dívida pública, muitas vezes com um aumento da dívida externa.

Ou seja, é essencial diversificar a produção e as exportações, como fizeram recentemente, por exemplo, Ruanda e Camarões, países dependentes de exportações minerais que conseguiram expandir as suas exportações agrícolas. Apenas dois exemplos que Angola pode seguir…»

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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