Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 25 de junho de 2021, onde abordo o bom exemplo de Angola na estratégia da vacinação da Covid-19.

«Recentemente, o director do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana, John Nkengasong, revelou que uma terceira vaga avançava «agressivamente» em África, principalmente devido à proliferação da variante indiana, que ganha cada vez mais terreno no continente africano (e não só…). 

Com cerca de 1.300 milhões de habitantes, África recebeu até ao momento 54,9 milhões de doses, das quais 35,9 milhões já foram administradas, revelou a entidade, que adiantou que apenas 0,6% da população africana tinha a vacinação completa. Em termos globais, África apresenta cerca de 4,9 milhões de casos (2,9% do total mundial) e mais de 133 mil mortes (3,7% do total mundial).

Entretanto, o G7 revelou posteriormente um plano cuja meta é dar aos países mais carenciados mais de mil milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 até o final de 2022 (das quais 500 milhões por parte dos Estados Unidos e 100 milhões do Reino Unido), um número que o secretário-geral da ONU, António Guterres, considerou de insuficiente, já que a humanidade, segundo o ex-primeiro ministro de Portugal, precisa de reconhecer que está em guerra com «um vírus» e, como tal, é necessária a implementação de uma verdadeira «economia de guerra». 

Também Durão Barroso, presidente da Aliança Global para as Vacinas (GAVI), uma iniciativa da Fundação Bill e Melinda Gates, admitiu a complexidade da distribuição de vacinas em África e nos países mais pobres, mas também a escassez de doses no mercado devido ao acúmulo excessivo de vacinas por parte dos países mais ricos, algo que, felizmente, parece estar a mudar. Deste modo, e ao contrário do que se pretendia, o objectivo inicial de assegurar 2 mil milhões de doses aos países em desenvolvimento até ao fim de 2021 foi adiado, em teoria para o primeiro trimestre de 2022, o que coloca em causa a imunidade mundial.

A verdade é que estas declarações e números demonstram que dificilmente África conseguirá alcançar a meta de vacinar 10% da sua população até Setembro, algo que só seria possível, e segundo cálculos da Organização Mundial da Saúde, se o continente recebesse 225 milhões de doses de uma assentada.

Para termos uma ideia da desigualdade que há neste momento, o epidemiólogo Salim Abdool Karim fez uma simples conta: «Somos 7.500 milhões de pessoas no mundo e há 1.800 milhões de vacinas. Isto significa que uma a cada cinco pessoas tem acesso à vacina. Em África, temos uma para cada 50 pessoas. É uma tremenda desigualdade tremenda e injustiça.»

Mas felizmente há casos de sucesso no continente. Há poucas semanas, as empresas exploradoras de petróleo em Angola assinaram um acordo com o Governo no qual se comprometeram a oferecer ao país um milhão de vacinas contra a Covid-19. Isso permitirá, segundo as entidades governamentais, a vacinação de mais 500 mil pessoas, aumentando deste modo a imunidade da população.

Estas vacinas somar-se-ão as 2.172.000 doses da vacina da Covid-19 alocadas ao país até Junho como parte das doses doadas a mais de 92 países de baixa renda pelos parceiros da iniciativa COVAX, o que aumenta a possibilidade de Angola alcançar a meta de pelo menos 20% da sua população vacinada até ao final do ano. Portanto, estamos perante um verdadeiro oásis em África, um exemplo que deve ser olhado com orgulho por parte dos angolanos.

Não podemos ignorar que este é um problema da humanidade e não deste ou daquele país e continente, já que, enquanto o vírus circular livremente a nível mundial, a probabilidade de infecção ou reinfecção é maior, assim como a probabilidade de surgirem novas variantes que poderão ser mais transmissíveis e perigosas, como é o caso neste momento da variante B.1.617, que surgiu na Índia, por exemplo.

Felizmente, Angola está a fazer o seu papel, principalmente ao não desperdiçar vacinas que chegam ao nosso país, algo que acontece em outras nações africanas por esta ou aquela razão, como a debilidade dos sistemas de saúde, problemas logísticos, a falta de frigoríficos para armazenar as doses, energia eléctrica, formação, insegurança em muitos países, etc. 

«Felicitamos Angola pelo forte engajamento e determinação demonstrados desde o processo de elaboração atempada do plano de vacinação, a regulamentação, entre outros, o que resultou na resposta positiva da Covax e a aquisição atempada de vacinas para a protecção da sua população”, afirmou a representante da Organização Mundial de Saúde em Angola, Djamila Cabral. «A OMS regozija-se de poder estar ao lado do Governo de Angola e das populações nesta empreitada para proteger a saúde de todos e salvar vidas.»

O caminho a seguir por Angola é este, com responsabilidade e compromisso. Evidentemente que não é o mundo ideal, mas também não deixa de ser um oásis em África, o que deve ser destacado por todos.»

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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