Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 11 de junho de 2021, onde abordo o aumento da procura dos minerais.

«A Agência Internacional de Energia (AIE) revelou recentemente um relatório no qual salienta que a procura por minerais dedicados à construção de tecnologias de energia limpa será multiplicada por quatro até 2040 se a humanidade alcançar as metas do Acordo de Paris.

A transição energética tem um preço e a neutralidade de carbono ambicionada pelo Acordo de Paris apresenta uma factura significativa  para os moldes actuais e que portanto não podem ser menosprezadas nas mesas das decisões (recorde-se que as metas assinadas na capital francesa visam alcançar a descarbonização das economias mundiais e estabelece, como um dos seus objectivos de longo prazo, o limite do aumento da temperatura média global a níveis abaixo dos 2 graus centígrados acima dos níveis pré-industriais. Este acordo determina ainda que se prossigam esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus centígrados).

A AIE salientou no seu relatório que um carro eléctrico precisa de seis vezes mais minerais que um automóvel convencional e uma instalação de turbinas eólicas necessita nove vezes mais do que uma central a gás com a mesma capacidade de geração de energia.

Segundo as estimativas da entidade, e caso as metas do Acordo de Paris sejam alcançadas, o desenvolvimento de carros eléctricos e baterias significaria uma multiplicação por 30 no consumo de minerais entre 2020 e 2040, por exemplo, um número que não pode ser ignorado pelos políticos mundiais.

Já o fortalecimento e extensão das redes elétricas para cobrir as energias renováveis ​​significariam a duplicação do consumo de cobre. A procura do lítio (essencial para as baterias), por exemplo, seria multiplicada por 32. 

Estas são outras estimativas salientadas no relatório da AIE:

  1. Grafite, procura multiplicada por 25
  2. Cobalto, procura multiplicada por 21
  3. Níquel, procura multiplicada por 19
  4. Terras raras, procura multiplicada por 7

Evidentemente que este alerta da Agência Internacional de Energia não tem como objectivo ignorarmos as metas do Acordo de Paris, mas é uma forte chamada de atenção de que há outros custos a ter em conta nesta transição energética por parte dos governos, que devem dar sinais claros sobre como planeiam transformar os seus compromissos climáticos em acção. 

O director executivo da AIE, Fatih Birol, defendeu a necessidade de todos trabalharem em conjunto para deste modo reduzir significativamente os riscos de volatilidade dos preços e interrupções no fornecimento.

Se não forem realizadas estratégias económicas reais e concertadas entre todos nos próximos tempos, há uma grande possibilidade de existir no futuro problemas na oferta a nível mundial, o que significará uma incerteza de preços que poderá colocar em causa toda a transição energética ocorrida até então.

Para atenuar este problema, é necessário o investimento urgente em soluções tecnológicas que permitam a redução da quantidade de material utilizado, assim como a reciclagem. Por exemplo, e segundo várias pesquisas, a reciclagem do cobre, lítio, níquel e cobalto das baterias até 2040 poderá compensar cerca de 10% das necessidades desses minerais. Mas é necessário mais, muito mais para cobrir as necessidades do mercado.

Nos bastidores, já se começa a falar com preocupação sobre este tema, principalmente em relação às cadeias de suprimento dos minerais, hoje em poder da China. Os especialistas recordam que as exigências ambientais das últimas décadas acabaram por provocar o fecho de muitas minas, ao mesmo tempo que abriram as portas aos chineses, que conseguiram ver a importância do controlo sobre as cadeias de suprimentos de matérias-primas. 

A China possui hoje recursos maciços de alguns dos principais minerais, além de dominar o seu processamento. Em 2019, e a nível mundial, o país foi responsável pelo processo de 65% do níquel a nível mundial, mas também 82% do cobalto, 93% do manganês, 59% do lítio, 83% de tungsténio e 100% do suprimento global de grafite, por exemplo. 

Esse domínio dos minérios por parte de Pequim preocupa grande parte do mundo, principalmente os Estados Unidos, que olha como está vulnerável em termos comerciais, dependendo dos humores do Governo chinês, que tem todas as peças para controlar ou influenciar significativamente os mercados mundiais (e as suas políticas).

Por isso, é com naturalidade que alguns países já começam a fazer stock de minerais, temendo uma eventual falha nas cadeias de abastecimento. Ou então a fortalecer alianças diplomáticas e comerciais tendo em vista a manutenção dessas cadeias de suprimentos. O que ninguém nega é que as peças do tabuleiro de xadrez estão a mudar e o minério poderá ser o novo petróleo do passado. »

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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