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Recentemente, a ANP l WWF revelou preocupantes dados sobre o consumo da UE na natureza a nível global, no qual soubemos, por exemplo, que a União Europeia é responsável por 16% da desflorestação associada ao comércio internacional. Estivemos à conversa com Rui Barreira, Coordenador de Floresta, Alimentação e Vida Selvagem da ANP l WWF.

Ficaram surpresos com estes dados do relatório “Em crescimento? O impacto continuado do consumo da UE na natureza a nível global”? 
Há muito que a ANP l WWF tem vindo a falar sobre o enorme impacto do nosso consumo nas florestas e outros ecossistemas naturais. O relatório da WWF, com dados de Pendrill et al. (2020) e da iniciativa Trase, e compilados pelo  Stockholm Environment Institute (SEI)/Trase, revela o cenário por trás do comércio internacional da União Europeia e as consequências deste no que diz respeito à desflorestação tropical e destruição de ecossistemas por todo o mundo – entre 2005 e 2017, a União Europeia foi o segundo maior importador do mundo de desflorestação tropical e de emissões associadas.

Mas das várias conclusões e alertas do relatório, quais as que mais chamaram a atenção da ANP l WWF? 
Mais do que a análise e conclusões tiradas sobre o consumo europeu, os dados sobre Portugal são de extrema importância pela sua grandeza face à dimensão do país. De acordo com o referido relatório, Portugal é o 6º país da União Europeia com maior consumo per capita associado a desflorestação nos trópicos (7 m2/ano) e o 9º país com mais desflorestação importada dos trópicos associada (em média 7.200 ha/ano).

No entanto, a União Europeia mostra-se ao mundo como uma espécie de exemplo a nível mundial em relação às questões ambientais. Estamos perante o lobo com pele de cordeiro? 
A UE é um exemplo em várias áreas de combate às alterações climáticas, como, por exemplo, a redução de emissões de gases com efeito estufa, a importação de madeira, ou os impostos verdes, entre outros. Mas a verdade é que é importante atuar no consumo por forma a mitigarmos a nossa pegada. A Europa tem pouca terra arável face à população residente bem como aos turistas de outros continentes que nos visitam todos os anos, pelo que tem de importar muitos dos bens que consome. Assim sendo, cabe-nos garantir que fazemos o mesmo caminho de sustentabilidade que já temos noutras áreas relevantes para o combate às alterações climáticas. 

Quais os caminhos que a UE deve tomar de imediato para não estar neste pódio indesejado por todos? 
Não desvalorizando muitas outras questões no âmbito da sustentabilidade, é importante a adopção de um quadro legal claro que permita rastrear a proveniência dos produtos e sobretudo impedir a destruição de biodiversidade. Paralelamente, é necessário apostar na promoção de hábitos por parte dos consumidores para que os cidadãos façam escolhas cada vez mais conscientes do impacto para o planeta, sem com isso criar políticas e/ou subsídios que indirectamente causem destruição em outros habitats igualmente relevantes e fundamentais para o bem-estar e para os meios de subsistência de muitas comunidades. 

Evidentemente que a desflorestação é um problema de todos. Mas como equilibrar o comércio mundial e a desflorestação? 
A resposta simples é criar regulamentação que impossibilite o comércio de bens associados à desflorestação. Mas é mais complicado que isso. Por um lado, é preciso reduzir o consumo e promover um maior conhecimento das pessoas relativo ao valor nutritivo do que comem, da importância de consumir o mais possível bens sazonais e de proximidade, entre outros fundamentais para dietas mais sustentáveis. Por outro, é preciso uma maior transparência ao longo de toda a cadeia de abastecimento de bens alimentares. Convém não esquecer que alguma da desflorestação é legal nos países onde ela ocorre, como é o caso do Brasil. Para travar isto, o consumidor tem um papel fundamental em não adquirir bens que estejam ligados a estes processos.   

Mas a desflorestação é algo inevitável para a manutenção do nosso bem-estar social, pelo menos nos países desenvolvidos? 

A desflorestação não é inevitável. Na verdade, a desflorestação só cresce porque a procura de bens e produtos não pára de aumentar. Enquanto não foram adoptadas dietas que respeitam os limites do nosso planeta, a desflorestação continuará a ser um problema. De referir também que, em países onde a desflorestação acontece, está claro que a pequena agricultura e a agricultura familiar que gera desflorestação é em muitos casos, fundamental como meio de sobrevivência de comunidades.

O Governo brasileiro alega que os países ricos se desenvolveram à custa da destruição da floresta, que se aproveitaram e continuam a aproveitar os recursos da região. Há algum fundamento nesta alegação? 

O relatório “Em crescimento? O impacto continuado do consumo da UE na natureza a nível global” mostra que existe uma predominância na origem dos produtos vindos do hemisfério sul. 

Muitos países beneficiaram de matérias-primas e bens provenientes do Brasil, vários explorados a partir de grandes conglomerados internacionais que se aproveitaram de leis pouco fortes no Brasil, e noutros locais. Reforçar a capacidade de implementar leis em países de onde provém a desflorestação é também chave para travar esta perda de floresta e de biodiversidade.   

Há nos nossos dias uma grande procura de vastas áreas de exploração agrícola e de biocombustíveis em países tropicais em desenvolvimento por parte de empresas privadas. Este é um dos efeitos mais perversos dos nossos dias? 

Sim, à semelhança da resposta anterior, também aqui é necessário implementar leis e respectiva fiscalização, eficaz na protecção destas áreas e assim, impedir actividades tão negativas para o planeta como a desflorestação. 

E acreditam que a exploração sustentável é algo possível segundo o nosso nível de desenvolvimento? 

Sim, claro. Contudo, temos de alterar significativamente a nossa forma de consumir. Por exemplo, a ANP l WWF está a implementar o projecto internacional Eat4Change, com parceiros europeus e da América Latina, com o objectivo de mudar hábitos de alimentação para hábitos mais sustentáveis entre os jovens (na faixa etária dos 15-35 anos), procurando também trabalhar em conjunto com empresas e autoridades para que sejam adoptadas práticas de produção mais sustentáveis. O objectivo também passa por consciencializar para o papel que cada um de nós e consequentemente as nossas escolhas individuais podem ter na preservação do planeta e da nossa saúde. 

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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