Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 28 de maio de 2021, onde abordo um relatório da Agência Internacional de Energia, que demonstra claramente que o fim dos combustíveis fósseis está próximo.

«Como todos sabem, a economia angolana é sustentada em grande parte pelos combustíveis fósseis. No entanto, nos últimos anos, o mundo virou-se definitivamente para as energias renováveis, não existindo nos nossos dias espaço para outro caminho, fruto dos problemas ambientais que a humanidade vive.

Na semana passada, a Agência Internacional de Energia (AIE), organização internacional cujo objectivo é coordenar as políticas energéticas dos seus estados-membros e conhecida mundialmente no sector pela sua posição conservadora, apresentou um relatório que deve ser olhado com bastante cuidado pelos nossos políticos, já que a AIE demonstra claramente que o fim dos combustíveis fósseis está próximo, mais próximo do que muitos possam acreditar ou desejar.

A principal conclusão que podemos retirar do relatório “Net Zero by 2050 – A Roadmap for the Global Energy Sector” (“Net Zero até 2050: um roteiro para o sector energético global”) é claro: para evitar a catástrofe climática que vivemos, mais nenhum investimento deve ser feito no petróleo, gás e carvão.

Fundada como resposta à crise internacional do petróleo em 1974 e integrada na estrutura da Organização pela Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), o relatório da AIE procura ir de encontro aos objectivos do Acordo de Paris, que visa alcançar a descarbonização das economias mundiais e estabelece, como um dos seus objectivos de longo prazo, o limite do aumento da temperatura média global a níveis abaixo dos 2 graus centígrados acima dos níveis pré-industriais. O acordo determina ainda que se prossigam esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus centígrados.

O que é de significativo no estudo da AIE é a sua abertura para a aposta nas energias verdes, quando, nas últimas décadas, sempre pareceu colocar um certo travão na evolução das energias renováveis. Não podemos ignorar que os estudos da Agência Internacional de Energia moldam, muitas vezes, decisões políticas de diversos governos, além de ditar o rumo do sector. Por isso a necessidade do Governo de Angola (e de outros países que dependem e muito dos combustíveis fósseis) olhar com atenção para o relatório “Net Zero by 2050 – A Roadmap for the Global Energy Sector”, que apresenta 400 medidas e desafios para alcançar o denominado “Net Zero” (emissões líquidas zero) até 2050, sendo três os “pilares desta enorme casa”:

  1. Fim imediato do investimento em petróleo, gás ou carvão
  2. Energia solar e eólica deve fornecer 68% de toda a procura global de electricidade
  3. Emissões totais de CO₂ relacionadas à energia devem chegar a zero até 2050

O cronograma sugerido pela Agência Internacional de Energia é o seguinte:

2021 – Fim dos investimentos em projectos de combustíveis fósseis

2035 – Proibir as vendas de carros novos com motores de combustão 

2040 – Sector de energia eléctrica alcança emissões líquidas zero 

2050 – Sector global de energia alcança emissões líquidas zero 

Ou seja, o que a AIE demonstra é que o mundo já não pode esperar e precisa agir agora e não amanhã, o que significa, defende a instituição, o fim imediato do financiamento de novos projectos de exploração de campos de petróleo e gás, mas também de novas minas de carvão. Apesar de reconhecer o problema dos combustíveis fósseis e da necessidade das energias renováveis como saída para os nossos problemas ambientais, a AIE reconhece no entanto que há um grande caminho por percorrer, já que as soluções propostas ainda são insuficientes. No entanto, e este é o alerta deixado, a verdade é que as empresas de petróleo, gás e carvão estão agora ainda mais isoladas. 

O relatório da AIE admite que será necessário nos próximos anos uma transformação sem precedentes na forma como se produz, transporta e utiliza a energia a nível mundial, uma energia que deverá ser dominada pelas tecnologias solar e eólica, que substituirão os combustíveis fósseis. 

Se hoje esses mesmos combustíveis fósseis representam ⅘ da energia mundial, até 2050 deverá representar ⅕, sendo que essa porção existirá devido às técnicas de captura e armazenamento de dióxido de carbono que serão criadas nos próximos anos.

Ao defender o caminho da descarbonização, a conservadora Agência Internacional de Energia revela que a Era dos Combustíveis Fósseis chega em breve definitivamente ao seu fim e portanto os países que dependem do sector serão obrigados a encontrar soluções tendo em vista a sustentação das suas economias. Não há tempo para ganhar mais… tempo.» 

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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