Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 9 de Abril de 2021, onde abordo a necessidade de uma pandemia a cada dois anos para alcançar os valores pretendidos pelo Acordo de Paris.

«Um recente estudo revela que seria necessária uma pandemia da qual vivemos agora a cada dois anos na próxima década para conseguirmos alcançar as reduções de emissões de dióxido de carbono pretendidas no Acordo de Paris.

No ano passado, e devido à pandemia, ocorreu uma queda nas emissões de cerca de 7%, cerca de 2,6 mil milhões de toneladas de CO2. Segundo os especialistas, e para alcançarmos as metas do Acordo de Paris, que pretende a descarbonização das economias mundiais, limitando o aumento da temperatura média global a níveis bem abaixo dos 2ºC acima dos níveis pré-industriais e prosseguir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC, teremos de ter reduções entre 1 e 2 mil milhões de toneladas a cada ano na próxima década.

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Ou seja, para alcançarmos as metas de Paris, que parecem cada vez mais distantes, seria necessário a humanidade viver uma  pandemia como a da Covid-19 de dois em dois anos, refere o estudo publicado recentemente na revista Nature Climate Change. Isso apesar de, antes da pandemia, o mundo ter vivido uma queda nos valores globais de CO2, embora muito inferiores ao pretendido tendo em vista o colapso do clima. 

O principal problema é que, após um bom ano para a luta contra o aquecimento global, os pesquisadores acreditam que a humanidade viverá em muito pouco tempo um novo aumento das emissões de CO2, fruto da retomada económica esperada e ansiada por todos, o que prejudicará o cumprimento das metas de Paris.

«Precisamos de um corte nas emissões de aproximadamente o tamanho da queda [dos bloqueios] a cada dois anos, mas por métodos completamente diferentes», afirmou a principal autora do estudo, Corinne Le Quéré. «Não conseguimos entender no passado que não podemos ter o combate às mudanças climáticas como uma questão secundária. Não pode ser sobre uma lei ou política, tem que ser colocado no centro de todas as políticas (…) Cada estratégia e cada plano de cada governo devem ser consistentes com o combate às mudanças climáticas.»

Com este novo estudo, muitos colocam em causa o ganho que o clima obteve com a paralisação mundial em 2020, já que a queda verificada nas emissões de gases de efeito é visto agora como algo passageiro, ou seja, poderá ter pouco impacto nas metas climáticas a longo prazo, defendem os pesquisadores.

«As emissões foram menores em 2020, pois a infra-estrutura de combustível fóssil foi reduzida. Mas a infra-estrutura de combustíveis fósseis, quando novamente utilizada em pleno, colocará em risco estes valores, algo que, aliás, foi verificado após a crise financeira global de 2009», refere Glen Peters, co-autor do artigo. 

O artigo revela ainda que 64 países estavam a reduzir as suas emissões no período entre 2016 e 2019 em comparação ao período de 2011-2015. No entanto, isso não acontecia em 150 países, muitos de África, incluindo em Angola.

O que os autores defendem no artigo publicado na revista Nature Climate Change é que os governos devem utilizar o investimento que certamente acontecerão na reabertura da economia mundial pós-pandemia de forma consciente, tendo como foco de decisão o Acordo de Paris. E isso significa uma aposta nas energias verdes e não nos combustíveis fósseis, que continuam a ser em muitos países o motor das suas economias. Até porque, esperemos, a humanidade não tem como meta viver uma pandemia como a actual a cada dois anos para salvar a sua própria existência.

A questão que todos colocam agora é como decorrerá a transição da pandemia, o até que ponto os Estados poderão colocar a sua recuperação económica em causa tendo em vista os objectivos ambientais exigidos por todos. A equação não é nada fácil e espera-se períodos conturbados nos próximos tempos, ainda mais quando ninguém pretende viver momentos como os de agora. 

Pela nossa experiência e recorrendo às opções tomadas após as crises do passado, muito dificilmente os decisores mundiais terão em mente as questões ambientais no período pós-Covid-19. Basta verificar que, mesmo em plena pandemia, muitos países colocaram em causa a saúde dos seus concidadãos em detrimento da viabilidade económica. Deste modo, acreditar que as questões do ambiente ficarão à frente das questões económicas no pós-pandemia não deixa de ser uma utopia.

O problema é que, como agora acontece com a pandemia, o presente não pode colocar em causa o nosso futuro. Por vezes, temos de olhar para amanhã para actuarmos hoje…

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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