Daniel Filipe Dongo foi o melhor estudante do curso de Mestrado em Gestão de Petróleo e Gás da Universidade de Coventry, uma distinção que mexeu consigo e que espera que tenha frutos em Angola, onde espera «ser um excelente tecnocrata no sector petrolífero, com capacidades para contribuir com análises e opiniões, tanto na indústria como na academia».

Antes de tudo, quem é Daniel Filipe Dongo?
Daniel Filipe Dongo é um jovem angolano, nascido em Luanda, filho de João Dongo e de Marcelina Fernanda Pedro Filipe, primeiro filho dos seus pais, cristão pela graça de Deus, licenciado em Engenharia de Petróleo e mestre em Gestão de Petróleo e Gás. 

E como foi a sua caminhada de ensino em Angola?
Comecei a estudar desde muito cedo. Aos 4 anos, em 1997/98, já frequentava uma explicação no bairro Prenda, onde nasci e cresci até os meus 11 anos. A professora da explicação disse aos meus pais que eu era muito inteligente e que não precisava fazer a primeira classe, então tiraram-me da pré para a segunda classe. Sempre fui um dos alunos, senão o mais novo em termos de idade, em cada turma por qual passei.  Aos 17 anos terminei o ensino médio no complexo Escolar Divina Providência, em 2010, e, aos meus 23 anos, em 2017, fui o primeiro licenciado do curso em Engenharia de Petróleo da Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto, obtendo 17 valores na minha defesa de tese e 14 valores como média final do curso. 

Como refere, licenciou-se em Engenharia de Petróleo na Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto. Como foi essa experiência? Ficou surpreso com o conteúdo do curso? Era o que esperava? Etc.
Felizmente tive o privilégio de ser o primeiro estudante do curso, assim sendo o primeiro “produto” do curso. A experiência foi boa, principalmente nos três últimos anos, os anos que dispensei a maior parte das disciplinas e fiz poucos exames. Os dois últimos foram já bem mais direccionados à indústria petrolífera. Fui apenas a 3 recursos ao longo da minha caminhada, tudo isso no primeiro ano. Do segundo ao último ano já não voltei a experimentar nenhum recurso. Nunca deixei nenhuma cadeira em atraso e senti-me bastante orgulhoso de mim e dos colegas que estudavam comigo. Não fiquei surpreso com o conteúdo do curso, mas, naquela altura, não tinha uma visão da indústria ou académica no que tange ao sector petrolífero como a que tenho agora, então fica difícil para dizer se era o que eu esperava. 

Mas qual análise faz do curso em si?
Depois de ter feito o mestrado e de ver a realidade do ensino no Reino Unido, percebi que o curso precisa de reestruturação e reformas. Algumas cadeiras deveriam ser implementadas e outras retiradas do conteúdo programático. Além disso, o curso deve conter programas de ligação  entre a Academia e a Indústria de modo a ter uma componente prática muito forte. 

Recebeu depois uma bolsa para a Universidade de Coventry. Como surgiu o convite? Foi uma surpresa? Concorreu para a universidade? Como surgiu esse convite? 
Depois de defender a tese de Licenciatura e obter 17 valores na nota final, o Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás de Angola (MIREMPET) decidiu apostar em mim e investir na minha formação, desta forma dando continuidade aos meus estudos com um programa de mestrado no exterior do país, nesse caso no Reino Unido. Foi uma das maiores surpresas da minha vida, um dos acontecimentos mais agradáveis que já vivi. Quanto a Universidade de Coventry, depois de 6 meses de inglês em Londres, tive 9 meses de pré-mestrado no OnCampus Coventry, onde terminei com distinção em todas as disciplinas. Através desse desempenho, a Universidade de Coventry ofereceu-me um lugar para fazer por lá o mestrado. 

E como foram esses dois anos em Coventry?
Os dois anos em Coventry foram anos muito intensos para mim, foram anos em que tive de testar as minhas capacidades. Por exemplo, como gerir o tempo, viver sozinho e longe da família, ser autodidacta em todos os aspectos. Trago comigo recordações de um lugar agradável, o melhor lugar que tive até agora para estudar, um lugar onde todos os meus finais de semana, e de forma regular, eram gastos na biblioteca, lugar onde pretendo visitar caso tenha essa oportunidade. 

E a universidade em si? Muito diferente do que viveu em Angola, por exemplo? Quais as principais diferenças, positivas e negativas?
Felizmente a Cove University é uma boa universidade, os professores são bastante prestativos, muitas instalações que facilitam o aprendizado, tem todas as condições criadas para um excelente aproveitamento académico. Uma das maiores diferenças com a universidade em Angola é que a biblioteca da Universidade de Coventry fica aberta 24 horas por dia e 7 dias por semana. Encontras lá todos os livros para o sucesso do curso. Em Angola, as aulas da universidade eram das 07 às 12 horas, em Coventry eram das 09 às 16 horas. Passa-se quase o dia todo na universidade e a biblioteca está sempre aberta, em toda e qualquer situação, para que o estudante vá para lá e passe lá a noite a estudar se assim entender. 

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Mas em termos de ensino, sentiu alguma dificuldade ou sentiu-se preparado com as aptidões apreendidas em Angola?
O ensino em Angola preparou-me para enfrentar os desafios académicos em qualquer lugar do mundo. Por exemplo, desde a fase da minha licenciatura eu já passava às noites na universidade estudando e escrevendo a minha tese (monografia). Porém, no início, houve algumas dificuldades, pois o sistema de ensino é completamente diferente, assim como a carga horária, a língua e o ambiente. 

Quais as principais diferenças que encontrou em termos de ensino entre o angolano e o britânico? Por exemplo: o angolano é mais prático? O britânico visa mais a criação de grupos de trabalho? Etc.  Qual a avaliação que faz do ensino de um e de outro país?
Para esta pergunta tenho a dizer o seguinte: o que reparei, a nível de Mestrado, é que o sistema de ensino é mais a base de trabalhos (courseworks) do que provas. O ensino no Reino Unido prima muito pela originalidade e não na reprodução daquilo que o professor disse na aula. O estudante é 100% autodidacta, o plágio e a cábula são considerados crimes académicos e punidos de forma muito séria. O britânico investe muito em livros e na leitura com análise crítica. Quanto a avaliação do ensino de um ou de outro país, acredito que se reflecte nas condições que cada país oferece e com base na realidade vivida em cada um desses países. Em Angola estuda-se muito e muitas vezes acabamos por estudar de forma bruta e não focando no essencial. No Reino Unido, o estudante é chamado a solucionar problemas da vida real através de trabalhos desenvolvidos. 

E quais as principais dificuldades que sentiu?
Pelo incrível que pareça, o frio e a alimentação foram as minhas duas principais dificuldades no Reino Unido. Primeiro, foi a minha primeira viagem e não estava acostumado com o frio do Reino Unido nem das quatro estações que lá tem por ano. Segundo, a comida britânica, na minha opinião, não é uma das melhores para aquilo que eu gosto de comer. 

Foi o único angolano do curso? Quantos estrangeiros havia e o número total de alunos? Como foi o vosso relacionamento?
Não, não era o único angolano do curso. Éramos três angolanos, Ludy Sebastião, Aristides Costa e eu. Não me lembro do número exacto de estrangeiros nem do número total de alunos, mas lembro-me que havia estudantes dos seguintes países: Angola, Nigéria, Gana, Tanzânia, Inglaterra, Grécia, Líbano e outros. 
Eu sempre fui uma pessoa muito comunicativa, de fácil adaptação e fácil de fazer novos amigos. Tivemos uma relação muito saudável, fiz muitos amigos, alguns até hoje temos laços fortes como se fôssemos irmãos, principalmente os 2 angolanos que estudaram comigo e mais um amigo do Gana. 

Esta distinção, de ser o melhor estudante do curso de Mestrado em Gestão de Petróleo e Gás da Universidade de Coventry, mexeu muito consigo? O que isso poderá significar no seu futuro?
Honestamente, mexeu muito comigo e trouxe consigo muitas responsabilidades. Para o futuro, isso fará com que muitos olhem para mim como exemplo ou fonte de inspiração para os jovens estudantes angolanos espalhados pelo mundo. Em contrapartida, é um peso que carrego.

E o seu futuro, está em Angola ou no estrangeiro?
Angola é o meu amor e o lugar onde eu quero dar o melhor de mim com tudo que posso contribuir. Porém, devido às incertezas do futuro e muitas vezes a falta de oportunidade, vou preparar-me para estar aberto ao mundo. Se houver oportunidade em Angola, o que mais desejo de todo coração, será um prazer enorme eu servir a minha pátria. Se apenas houver no estrangeiro, então irei aproveitar. 

Qual o seu sonho em termos profissionais? E onde espera estar daqui a uma década?
O meu maior sonho, em termos profissionais, é ser um excelente tecnocrata no sector petrolífero, com capacidades para contribuir com análises e opiniões, tanto na indústria como na academia. Daqui a uma década espero estar numa organização onde eu possa crescer continuamente, fazer investigações sobre o mercado petrolífero e fazer parte das tomadas de decisões.

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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