Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, a 12 de Março de 2021, onde abordo a chegada do Homem a Marte, concretamente do robot Mars Perseverance Rove.

«Imagens valem mais do que mil palavras e algumas dominaram as redes sociais nos últimos dias salientando a pobreza extrema que se vive na Terra enquanto a Humanidade viu com assombro o robot Mars Perseverance Rove aterrar em Marte. A pergunta que muitos colocaram foi uma: é necessário explorar o espaço enquanto milhares de pessoas morrem de fome e passam por inúmeras dificuldades na Terra?

Como está a ser habitual nas redes sociais, o mundo ficou dividido em dois pólos antagónicos em relação à missão do Mars Perseverance Rover em Marte, concretamente investigar um antigo delta de um rio marciano e pesquisar por sinais de vida.

As pessoas começaram a questionar sobre os milhões gastos em mais uma missão espacial enquanto aqui na Terra milhões de pessoas passam fome. As vozes da revolta foram muitas nas redes sociais, sendo a imagem de um miúdo a beber água a ser o rosto deste questionamento. No pensamento de todos, a certeza de que os milhões e milhões de dólares gastos poderiam ser utilizados e aplicados para amenizar as necessidades básicas das pessoas na Terra. 

A verdade é que esta discussão é antiga e bastante recorrente. Sempre que há uma missão espacial de relevo, o tema surge em força na sociedade civil. No entanto, este ano, e devido à explosão das redes sociais nos últimos anos, o barulho foi ainda maior e amplificado. 

Ao olharmos friamente para os números, não podemos ficar indiferentes ao constatarmos que o investimento do recente projecto da NASA ronda os 2,9 mil milhões de dólares segundo a The Planetary Society, um número exorbitante, ainda mais se tivermos em conta que a Perseverance é apenas a sétima nave mais cara da história do programa de exploração espacial da NASA e a terceira tendo como destino Marte, atrás da Viking 1 e 2, de 1975, e da Curiosity, de 2011. 

Por isso, a pergunta que milhões de pessoas fizeram pelo mundo é mais que válida. Não é melhor resolvermos os problemas na Terra antes de gastarmos milhões de dólares no espaço? Ninguém discute a importância da exploração espacial, dos benefícios que as mais variadas viagens significaram para a Humanidade. Por exemplo, podemos enumerar algumas tecnologias derivadas da exploração espacial que são hoje usadas por todos no dia-a-dia, como o GPS, algumas delas fundamentais para reduzir as diferenças sociais entre nós, como os satélites meteorológicos ou as ferramentas wireless.

Foto retiradas das redes sociais
Foto retiradas das redes sociais

Mas 2,9 mil milhões de dólares? Não poderíamos investir parte desse valor (ou até mesmo a sua totalidade…) em desenvolvimento e conhecimento aqui na Terra para reduzirmos as diferenças sociais e a pobreza que aflige toda a humanidade? 

Por exemplo, como podemos explicar a um marciano as crianças com fome ou a rede de abastecimento de água inexistente quando visitarmos o seu planeta? Como explicar aos nossos vizinhos espaciais que não conseguimos descobrir uma maneira de vivermos de forma sustentável no nosso próprio planeta?

É difícil defendermos uma viagem a Marte quando a Terra luta desesperadamente contra inúmeros problemas que, com mais investimento em pesquisa, investigação e tecnologia, poderiam ser solucionados ou minimizados. Um investimento como os tais 2,9 mil milhões de dólares.

Há um enorme caminho que temos de percorrer aqui na Terra para solucionarmos os nossos problemas antes de pensarmos em habitar Marte ou outro qualquer planeta. Há muito que investigar. A exploração não tem de acontecer em Marte, mas aqui, na Terra. O que muda na minha vida ao ter um robot no solo marciano a enviar vídeos para o deleite de uma parte da comunidade científica? Não seria mais importante para mim e para milhares de pessoas a outra parte da comunidade científica encontrar de vez a cura para o cancro?

Confesso que não fico indiferente a possibilidade da humanidade habitar em algum dia outro planeta, será algo realmente digno da nossa grandeza. No entanto, antes, temos de cuidar da nossa casa, do nosso lar. Para isso, ele tem de ser habitável para todos.

Portanto, não, o espaço não é e nunca será a resposta para a salvação da nossa espécie e não é a única solução para o nosso futuro. Antes de olhar para cima, temos de olhar para o que está a nossa frente.» 

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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