Artigo de opinião publicado no Novo Jornal, de Angola, de 12 de fevereiro de 2021 onde abordo a educação em tempos de crise.

«Se há um sector que a pandemia abalou por completo os pilares da sua sustentabilidade foi a Educação. A Covid-19 mais não fez do que apresentar as fragilidades que o sistema educacional apresenta, não só em Angola, mas no mundo. Há duas em particular que merecem uma análise de todos: a falta de autonomia das crianças e dos jovens e a dificuldade de muitos professores em trabalharem com as ferramentas tecnológicas disponíveis nos dias de hoje, com as salas de aula transferidas para o computador.

Como referido, estes dois temas mereciam por si só uma reflexão, mas hoje prefiro abordar um mal ainda maior provocado pela pandemia no sistema educacional: a ausência de aulas e as suas consequências nos alunos. 

De acordo com um recente relatório divulgado pela Unesco, as crianças e jovens do mundo perderam em média 2/3 do ano lectivo por causa da pandemia. E, nos nossos dias, mais de 800 milhões de alunos (ou seja, mais da metade da população estudantil mundial) continuam sem aulas, entre eles os estudantes angolanos do ensino primário  (1.ª, 2.ª, 3.ª, 4.ª e 5.ª classes), que regressaram às aulas no passado dia 10 de Fevereiro, aulas que estavam suspensas desde Março de 2020 em resultado da Covid-19. 

Segundo o relatório da Unesco, Angola é precisamente um dos países onde as escolas estiveram mais tempo encerradas, concretamente mais de 40 semanas. A média global foi de 22 semanas (5,5 meses).

A directora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, foi clara na sua declaração ao afirmar que «o fechamento prolongado de instituições de ensino causa impactos psicossociais crescente nos alunos, aumentando as perdas de aprendizagem e o risco de abandono escolar, afectando desproporcionalmente deste modo os mais vulneráveis»

Para Audrey Azoulay, o encerramento total das escolas deve ser o último recurso a ser escolhido, embora reconheça ao mesmo tempo que os estabelecimentos educacionais só podem abrir em total segurança sanitária. Uma segurança que recentemente foi colocada em causa pelo presidente do Sindicato Nacional dos Professores angolanos, Guilherme Silva, que assegurou à agência portuguesa de notícias, a Lusa, que as condições de biossegurança não estavam criadas a nível do país nas escolas do ensino primário.

A abertura ou não das escolas é um dos debates em voga um pouco por todo o mundo. Está provado que o ensino à distância (quando este existiu) não conseguiu alcançar os resultados da consolidação dos saberes. Há inclusive muitos pedagogos que defendem que não se pode falar em aprendizagem no ensino online, principalmente por este não conseguir reter a mesma atenção que em aulas presenciais (e mesmo nessas há uma dispersão crescente, fruto da influência digital nas nossas vidas). Para muitos, «o ensino online é uma completa falsificação da educação».

Mas… E se não houver alternativas? E se o ensino online for a solução do futuro imediato? Será que é realmente uma alternativa tão nefasta como muitos defendem? 

Estamos a viver realmente um momento singular e é necessário encontrar soluções sem tabus ou dogmas. Num momento crucial para milhões de alunos, é fundamental olhar com alguma reflexão sobre a ausência de aulas e as suas consequências. 

O ensino online acarreta um enorme repto para o sistema educacional e evidentemente apresenta inúmeros desafios. Mas colocá-lo de lado em vez de integrá-lo do melhor modo possível parece uma decisão errada. Estamos a viver um período ímpar da história e é necessária clareza nas nossas decisões, sem medos do “desconhecido”. 

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Entre uma escola fechada, uma escola aberta em risco sanitário e o desconhecimento geral do ensino online, temos de encontrar o melhor caminho entre estas três alternativas (ou outras…).

Acima de tudo, é fundamental encontrar a melhor pedagogia a utilizar. É verdade que o fecho das escolas coloca em causa o tradicional processo ensino-aprendizagem, mas, em pleno século XXI, também temos a obrigação de encontrar soluções que, mesmo que temporárias, resolvam os nossos problemas. O que não pode acontecer é este duelo de dogmas, já que o futuro de milhões de alunos está em xeque com a pandemia.

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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