fbpx

Na sua edição de 1 de Fevereiro, o jornal Le Figaro apresentou um excelente artigo sobre a política norte-americana, agora com uma nova Administração comandada por Joe Biden, para África. 

Num artigo assinado por Tanguy Berthemet, o jornalista defende que Joe Biden e a sua Administração terão de tornar a política dos Estados Unidos em África mais «consistente após as deambulações do seu antecessor», Donald Trump. Isso porque o ex-presidente dos Estados Unidos conseguiu colocar em causa um legado político seguido pelos seus antecessores na região, um caminho que, até então, foi sempre objecto de consenso bipartidário. 

«De uma Administração para a outra, os conflitos de alianças diplomáticas eram raros», defende Tanguy Berthemet. E, para justificar a sua opinião, o jornalista refere o envolvimento militar (um tema sempre polémico e que divide democratas e republicanos há décadas) dos Estados Unidos na Somália, recordando que os norte-americanos estão no país desde 1992. Desde então, tivemos George H. W. Bush (1989-1993, republicano), Bil Clinton (1993-2001, democrata), George W. Bush (2001-2009, republicano), Barack Obama (2009-2017, democrata) e Donald Trump (2017-2021, republicano) na cadeira da Casa Branca. E jamais a presença dos militares no país foi colocada em causa, até a chegada de Donald Trump.

Mas há outros exemplos além do militar, já que a presença dos Estados Unidos em África abrange diversos acordos e programas, como o PEPFAR (Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da Sida), que foi estendido para outras doenças, como tuberculose e malária, o AGOA, que prevê isenção aduaneira a mais de seis mil produtos de países africanos, e o Power Africa Fund, um pacote para acelerar o acesso à electricidade em 25 países africanos, por exemplo. 

LEIA TAMBÉM
O Dia do Clima de Joe Biden

Todos os projectos que foram colocados em causa com Donald Trump e a sua equipa durante os quatro anos de poder na cadeira da Casa Branca. Portanto, para Tanguy Berthemet, o legado do ex-presidente dos Estados Unidos na região foi negativo aos olhos dos africanos e de muitos dos seus dirigentes, ainda mais por Donald Trump nunca ter feito uma única visita oficial ao continente durante a sua Administração.

Ex-embaixador americano, Jeffrey Hawkins refere no artigo que o ex-presidente dos Estados Unidos mostrou acima de tudo «desinteresse e desprezo» por África, com uma ou outra excepção, como aconteceu nas relações com a República Democrática do Congo, «cujo rico subsolo parecia adequado para os negócios».

E agora Joe Biden? 

A pergunta agora que todos fazem no continente é uma: o que África pode esperar de Joe Biden? Com o ambiente, a recuperação económica interna e, principalmente, a pandemia a dominar por completo os primeiros dias da agenda norte-americana, como já referimos (leia aqui), não foi possível assimilar em pleno os sinais que o recente presidente dos Estados Unidos pretende para África, embora haja um dado positivo em concreto: o levantamento da proibição de vistos que afectava em particular três países, Sudão, Somália e Nigéria. Outro dado a assinalar são alguns dos nomes da sua equipa.

«Para os observadores, as primeiras nomeações do novo Presidente são um bom augúrio para uma política muito mais “afro-sensível” e multilateral, em linha com a de Barack Obama. A escolha de Linda Thomas-Greenfield como representante nas Nações Unidas é algo significativo. Além das suas origens afro-americanas, a diplomata de carreira é especialista no continente africano. Ela foi subsecretária de Estado de Obama para África após estar no Quénia, Nigéria e Gâmbia, assumindo depois o cargo de embaixadora na Libéria. A escolha de Samantha Power, ex-embaixadora de Washington nas Nações Unidas para chefiar a USAID, a agência de desenvolvimento internacional dos EUA, também pode fazer com que as questões africanas regressem para o primeiro plano. Uma terceira pessoa, mais discreta, é sem dúvida ainda mais importante: também proveniente da Administração Obama, Adewale Adeyemo, da Nigéria, é o número dois no Tesouro», escreve Jeffrey Hawkins no Le Figaro.

O jornalista aponta no seu artigo os assuntos que deverão ser prioritários para Joe Biden e a sua Administração: a guerra no norte da Etiópia, o Sudão, a posição no Saara Ocidental, a recente aliança com Marrocos e a Líbia. 

Assuntos realmente complicados de gerir e que certamente estarão em cima da mesa de Biden nos próximos tempos, que provavelmente procurará reverter algumas das medidas implementadas pelo seu antecessor tendo como base um modelo diplomático que vingou durante décadas nas relações entre os Estados Unidos e África. O que se espera é que o novo Presidente norte-americano não ignore a cultura do seu partido, tanto a nível interno como externo, e que, como no passado pré-Trump, consiga pressionar por uma África mais democrática e que respeite os direitos humanos. Após a última Administração ter escolhido a Ásia e o Pacífico como prioridade da sua política externa, África espera agora que Joe Biden volte a olhar com “carinho” para si.

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

Deixe seu comentário