A Covid-19 está a assolar a Economia mundial, mas está a ser positiva para o clima em geral. Segundo um recente estudo da Capgemini, World Energy Markets Observatory 2019 (WEMO), este ano a pandemia vai ser responsável pela redução em 8% das emissões de CO2.

«As estimativas apontam para que as emissões de CO2 baixem de 7% para 8% em 2020 devido a pandemia», revelou Colette Lewioner, consultora sénior para a área da Energia e Utilities da Capgemini, na apresentação da WEMO. Palavras realmente bastante positivas para o meio ambiente e apenas possível devido ao momento em que estamos a viver, o que permitiu, por exemplo, restrições relacionadas com as viagens e o forte abrandamento industrial.

Todavia, e como defendeu a própria Colette Lewioner, estes números (recorde-se: a maior redução de emissões de gases com efeito de estufa desde a Segunda Guerra Mundial) são provavelmente «temporários», pois dificilmente não regressaremos ao valores pré-Covid-19 após o mundo reencontrar o eixo da sua normalidade.

Para nos mantermos no caminho certo a nível ambiental, teriam de ser tomadas medidas de contenção semelhantes às actuais todos os anos e durante os próximos 10 anos, naturalmente algo inviável e indesejável.»

Energias renováveis ganham cada vez mais espaço na economia mundial

O estudo WEMO 2020 ressalta não só a redução do CO2 na pandemia, mas também outros dados que merecem a nossa atenção e reflexão. Por exemplo, a produção de energia a partir de fontes renováveis e as tecnologias de armazenamento das baterias estão a evoluir rapidamente.

Segundo o World Energy Markets Observatory 2019, as energias renováveis ganham cada vez mais espaço nos países desenvolvidos, representando mais de metade do investimento mundial da produção de electricidade.

No entanto, e este é o outro lado da moeda, os países emergentes não olham (ou não têm possibilidades) as energias renováveis como solução, já que continuam a apostar na construção de centrais eléctricas a carvão e a gás tendo para responder ao crescimento da procura de electricidade nos seus respectivos espaços territoriais.

Colette Lewioner salientou ainda na apresentação do WEMO que os custos das energias eólica e solar continuaram a diminuir mais de 10% em 2019, defendendo que as energias eólicas offshore parecem ser o caminho a seguir, já que as instalações onshore continuam a apresentar problemas que ainda encarecem a sua concretização (e rentabilização).

Outro abrandamento a destacar é o relacionado com os custos das baterias para veículos eléctricos e o armazenamento estacionário, com uma redução de 19% em 2019, um valor que faz com que China invista em 88 unidades fabris de grande dimensão nos próximos tempos.

Já distante do comboio das baterias e dos painéis solares, um comboio que tem os países asiáticos como os maquinistas principais, a Europa resolveu investir no desenvolvimento do hidrogénio verde, uma possível fonte de descarbonização industrial e do armazenamento da electricidade. A aposta no caminho para a descarbonização energética da União Europeia até 2050 faz com que a Comissão Europeia esteja disposta a investir entre 180 e 470 mil milhões de euros nos próximos 30 anos.

Redes de abastecimento energéticas instáveis

Uma das curiosidades que o estudo World Energy Markets Observatory 2019 apresenta é verificar que a rapidez do crescimento das energias renováveis, um movimento mais do que positivo para a humanidade em geral, está a trazer algo de certo modo inesperado pelos especialistas: a instabilidade das redes de abastecimento.

Dada a percentagem crescente das fontes de energia renovável intermitente (eólica e solar) no cabaz energético, o equilíbrio da rede eléctrica é mais difícil de assegurar e a segurança do abastecimento pode estar em risco», podemos ler.

Exemplos dessa situação foram vividos na Europa e nos Estados Unidos. Em Abril deste ano, a Alemanha e o Reino Unido estiveram próximos de sofreram apagões virtuais devido ao aumento substancial da percentagem (entre 60% a 70%) de electricidade renovável na rede, uma demonstração de que as redes, assim como a regulação, não estão aptas para lidar com uma elevada quantidade de energias renováveis na rede eléctrica.

Já nos Estados Unidos, em Agosto último, a onda de calor na Califórnia demonstrou falhas em áreas onde o fornecimento de energia dependia em parte da energia renovável (cerca de 35%), principalmente da energia solar. Com o excesso de ares condicionados ligados, houve apagões em vários bairros da região e a constatação de que há ainda um largo caminho a percorrer tendo em vista a utilização plena das energias limpas.

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«Dada à importância crescente das energias renováveis no cabaz energético e o encerramento eminente das centrais de geração programada, a estabilidade e a segurança da rede de abastecimento passaram a estar no topo das preocupações do sector», salienta o estudo.

Carbono deve ser alvo de taxas

A Capgemini revela no World Energy Markets Observatory 2019 algumas medidas que podem ser tomadas tendo em vista a obtenção dos objetivos climáticos mundiais, tais como:

  • controlar as emissões de CO2 e fixar um preço elevado para as emissões de carbono
  • impor impostos sobre o carbono, incluindo sobre os produtos importados
  • encorajar o desenvolvimento de formas de produção de energia verde
  • centrais nucleares seguras que permitam produzir electricidade “verde”
  • segurança da gestão da rede através de uma transformação digital
  • imposição de preços dinâmicos que permitam intensificar a resposta ao aumento da procura
  • alterar a “ordem de importância dos meios de produção” para permitir a redução das energias renováveis, se necessário
  • electrificação dos transportes
  • desenvolvimento do hidrogénio verde

Em resumo, todos devem trabalhar tendo em vista um real desenvolvimento sustentável e uma transição energética efectiva, já que só assim será possível usufruirmos de uma economia verde. A pandemia e a consequente redução de CO2 é apenas um sinal de que tal é possível.

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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