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No Novo Jornal e referente ao 45.º Aniversário da Independência de Angola, escrevi sobre a História do Petróleo em Angola. Mas não deixei também de olhar para o presente e para o futuro, num artigo publicado em duas edições, nos dias 13 e 20 de Novembro, devido ao seu tamanho.

«AngoIa comemorou, no passado dia 11 de Novembro, 45 anos de independência, quatro décadas e meia de uma história preenchida de altos e baixos, cuja energia central foi o “ouro negro” da humanidade: o petróleo! A exploração petrolífera em Angola data de finais dos anos 50 e início dos anos 60. Embora fosse uma das fontes de rendimento do País, os seus valores não superavam as receitas do sector agrícola, na altura o principal motor económico da então província ultramarina de Angola. Com a independência em 1975, ocorreu uma mudança de 180 graus e o petróleo tornou-se no principal componente de financiamento do orçamento geral do Estado, criando ainda, em 1975, a empresa estatal Sonangol, hoje uma referência no mercado petrolífero.

Ao olharmos agora para o passado, conseguimos compreender algumas das razões para esta virada de rumo, sendo a principal a Guerra Civil, uma guerra que delapidou por completo a economia angolana e fez que o Estado assentasse os seus pilares num único recurso, precisamente o petróleo, aliada ao que podemos considerar de uma clara falta de visão estratégica do poder instituído, que, ao existir, teria, por exemplo, criado condições para a aposta numa economia de guerra, ou seja, a criação de infra-estruturas produtivas de apoio e suporte à logística de guerra.

Instalada principalmente no enclave de Cabinda, a indústria angolana de petróleo alcançou um incremento significativo a partir da década de 1980, tornando-se, em pouco tempo, no segundo maior produtor de petróleo da África ao Sul do Saara, apenas atrás da Nigéria. De uma produção de apenas 745 mil barris/dia em 1999, Angola passou a produzir 1,86 milhões de barris/dia em 2008, por exemplo, números que fizeram que o País entrasse no selecto grupo dos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) a partir de Janeiro de 2007 (sendo um dos principais intervenientes da organização). Ao mesmo tempo, apresentou períodos de crescimento consecutivos de dois dígitos no Produto Interno Bruto (PIB), um crescimento sempre sustentado pelo negócio petrolífero, que representava metade do valor gerado do PIB.

A primeira parte do artigo sobre o Petróleo em Angola no Novo Jornal, publicado a 13 de Novembro
A primeira parte do artigo sobre o Petróleo em Angola no Novo Jornal, publicado a 13 de Novembro

Este eldorado acabou por esconder alguns dos problemas da sociedade angolana e da sua economia. Hoje é fácil afirmarmos que esta dependência exclusiva das receitas petrolíferas acabou por ser um erro, já que a diversificação da economia deveria ter sido o caminho seguido pelos nossos governantes ao longo destes 45 anos, principalmente durante os períodos de alta do preço do petróleo, quando havia receitas disponíveis para um maior investimento na Educação e na qualificação das pessoas, sem esquecer a Saúde. Infelizmente, foram caminhos completamente ignorados pelos nossos políticos, o que nos leva ao momento em que estamos a viver.

O presente depois de 45 anos

Apesar dos assinaláveis resultados que tornaram Angola uma referência pela positiva no “World Oil” na década de 80, não podemos ignorar que o País cometeu alguns erros críticos no sector petrolífero (talvez o principal a aposta no deep offshore, no pré-sal), a par do não-investimento ao longo dos anos nas áreas de downstream, em particular a refinação. Parece-nos que, no âmbito da restruturação do sector, o Estado despertou e tenta corrigir a situação apostando na transformação que agrega valor ao nosso petróleo, com destaque para a refinação local, infelizmente num contexto económico difícil, em que os grandes investidores estão em modo de retracção e contenção.

Por isso, devemos aplaudir a construção da futura Refinaria de Cabinda, que será edificada na planície de Malembo. Como referiu o presidente do conselho de administração da Sonangol, Sebastião Gaspar Martins, «a decisão final de investimento representa um dos principais objectivos estratégicos do Governo angolano. A construção desta refinaria proporcionará um aumento da capacidade de processamento de petróleo bruto a nível nacional e uma redução considerável da dependência do País na importação de produtos refinados, conforme previsto no Plano de Desenvolvimento Nacional».

Portanto, este projecto, com um custo total que deverá rondar os de 920 milhões de dólares, será uma peça-chave para a indústria nacional nos próximos tempos, já que a refinação do petróleo em Angola é um dos aspectos críticos do sector. Dividida em três fases, a Refinaria de Cabinda, com a sua conclusão em 2024, deverá ter uma capacidade de refinação para 60 mil barris/dia e permitirá «fornecer ao mercado nacional e regional gasolina, gasóleo/diesel, combustível para aviões (…), contribuindo decisivamente para o abastecimento do mercado doméstico e para a dinamização das exportações angolanas», impondo-se, assim, como mais uma fonte de receitas para o Estado. Recorde-se de que Angola importa a totalidade dos combustíveis que consome e a construção da Refinaria de Cabinda reduzirá finalmente a dependência da importação de combustíveis do estrangeiro, mas também aumentará a geração de empregos directos e indirectos (cerca de 1.500, segundo alguns estudos) na região (e no País).

Este é apenas um dos exemplos a seguir nos nossos dias. Nos últimos cinco anos, a produção mundial de petróleo caiu 24%, um número assustador para um país que tem precisamente como pilar central da sua economia o “ouro negro” e os seus derivados. Assim, é uma obrigação expandir, ao máximo, a nossa economia, perceber que, se no passado houve uma dependência colossal das receitas petrolíferas, agora é o momento de se apostar noutros sectores como o ouro, fosfatos, diamantes e ferro, por exemplo, e na indústria de manufactura e na agricultura (como salientou recentemente o Presidente do País, João Lourenço, no discurso sobre o Estado da Nação). Ao olharmos para o presente, podemos chegar a uma ciara conclusão: a dependência do petróleo, que tanto deu ao nosso País, também foi fatal para Angola ao longo destes tempos.

O futuro depois de 45 anos

«Corrigir o que está mal e melhorar o que está bem», defendeu João Lourenço na sua campanha de 2017. Este é precisamente o momento de não ficarmos dependentes em relação aos ânimos dos mercados petrolíferos, um mercado em plena ebulição, devido às profundas alterações provocadas pela denominada Economia Verde. Os combustíveis fósseis têm os dias contados e, por isso, a necessidade fulcral de vermos o amanhã com um novo olhar. Como já escrevi, o ponto de viragem da indústria petrolífera pode ter finalmente chegado, e as grandes petrolíferas devem tomar nota das inevitáveis mudanças e agir em conformidade, já que estamos a viver uma marcha inevitável em direcção a um futuro de fontes de energias mais sustentáveis.

As recentes quedas do preço do petróleo nos mercados internacionais não podem ser analisadas como consequência da Covid-19, já que essa tendência de queda é muito anterior ao aparecimento da pandemia. Sem subterfúgios, o retorno aos velhos tempos parece muito pouco provável. É verdade que ainda existe uma grande distância entre o mundo de hoje e um mundo em que o sistema energético seja compatível com os objectivos globais de protecção do clima e acesso à energia limpa.

E também não podemos ignorar o facto de que esta transição menos dependente do petróleo envolve grandes riscos e que os combustíveis fósseis ainda respondem por cerca de 85% da energia mundial. No entanto, a indústria petrolífera já enfrenta sérios desafios financeiros com o declínio da procura por combustíveis fósseis e com os investidores do sector a pressionarem para que os planos de investimento das grandes empresas petrolíferas estejam alinhados à expectativa de uma transição global rumo às energias limpas.

Portanto, será um erro não termos esta consciência hoje quando olhamos para o amanhã. As energias limpas serão o futuro de todos e é necessário que Angola também faça parte desta nova caminhada da humanidade. Como aconteceu no passado, quando o nosso País foi um dos principais players mundiais, é agora o momento de assumirmos outra vez um papel relevante no Mundo da Energia, transformando o “ouro negro” que tanto nos deu em “ouro verde”, que tanto nos poderá dar.

Author

Nascida em Luanda no ano de 1988, licenciei-me em Gestão pela Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Com uma sede insaciável de conhecer o mundo, já vivi em três continentes e sete cidades, capacitando-me assim a dominar várias culturas e quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês. Estudiosa por natureza, em 2010 frequentei o Mestrado em Negócios na American Business School of Paris, tendo recebido, no ano seguinte, o diploma de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, com a dissertação de mestrado “O Papel das Organizações Não Governamentais no Processo de Reconstrução Social Pós-Conflito em Angola”. Ao longo da minha carreira profissional, procurei sempre enriquecer o meu conhecimento. Embora o meu percurso académico tenha iniciado pela via económica, a minha carreira profissional percorre, desde sempre, no mundo das Energias Renováveis e Não-renováveis.

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